[é a hora da estrela]
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Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
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Dá-me a tua mão: vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
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Flores envenenadas na jarra. Roxas azuis, encarnadas, atapetam o ar. Que riqueza de hospital. Nunca vi mais belas e mais perigosas. É assim então o teu segredo. Teu segredo é tão parecido contigo que nada me revela além do que já sei. E sei tão pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu és o meu.
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Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar.
[Clarice Lispector]
CASA, s.f. edifício destinado a habitação. et coetera. ESPELHO, s.m. superfície brilhante e polida que reflete os raios luminosos ou a imagem dos objetos. et coetera.
quinta-feira, março 17, 2005
segunda-feira, março 14, 2005
terça-feira, março 08, 2005
[...]
Durante sete anos andei, dia e noite, só com uma coisa na mente: ela. Se houvesse um cristão tão fiel a seu Deus quanto eu a ela, nós todos seríamos Jesus Cristo. Dia e noite pensava nela, mesmo quando a estava enganando. E agora às vezes, bem no meio das coisas, quando sinto que estou absolutamente livre disto tudo, de repente, ao virar uma esquina talvez, surge uma pequena praça, algumas árvores e um banco, um lugar deserto onde ficamos em pé e discutimos, onde nos deixamos mutuamente loucos com ferozes cenas de ciúmes. Sempre algum lugar deserto, como a Place de l’Estrapade, por exemplo, ou aquelas ruas sujas e lúgubres perto da Mesquita ou ao longo daquele túmulo aberto que é a Avenue de Breteuil, a qual às dez horas da manhã é tão silenciosa, tão morta que faz a gente pensar em homicídio e suicídio, qualquer coisa que possa criar um vestígio de drama humano. Quando percebo que ela partiu, talvez para sempre, um grande vazio se abre e sinto que estou caindo, caindo, caindo no espaço profundo e negro. E isto é pior do que lágrimas, mais profundo que o pesar, a dor ou a tristeza; é o abismo em que lançaram Satã. Não há meio de subir de volta, não há raio de luz, nem som de voz humana ou toque de mão humana.
Quantas mil vezes, caminhando pelas ruas à noite, perguntei a mim mesmo se não voltaria jamais o dia em que ela estivesse ao meu lado: todos aqueles olhares ansiosos que lancei aos edifícios e estátuas... Olhava para eles tão esfomeadamente, tão desesperadamente, que agora meus pensamentos devem ter-se tornado parte dos próprios edifícios e estátuas, que devem estar saturados pela minha angústia. Eu não podia também deixar de refletir que quando caminhávamos lado a lado por essas ruas lúgubres e sujas, agora tão penetradas por meu sonho e minha saudade, ela não observara nada, não sentira nada: eram como quaisquer outras ruas para ela, um pouco mais sórdidas talvez, mais nada. Ela não se lembraria de que em certa esquina parei para amarrar os cordões dos seus sapatos, observei o lugar em que seu pé havia pousado, e que aquilo ali ficaria eternamente, mesmo após as catedrais terem sido demolidas e toda a civilização latina ter sido arrasada para sempre.
Descendo a Rue Lhomond certa noite, num acesso de extraordinária angústia e desolação. algumas coisas se me revelaram com pungente clareza. Não sei se foi por eu ter tantas vezes caminhado por essa rua em amargura e desespero, ou a lembrança de uma frase que ela disse uma noite, quando estávamos na Place Lucien Herr. “Por que não me mostra aquela Paris”, disse ela, “sobre a qual você escreveu?”. Uma coisa eu sei, que à lembrança daquelas palavras percebi de repente a impossibilidade de revelar-lhe a Paris que eu chegara a conhecer, a Paris cujos arrondissements são indefinidos, uma Paris que nunca existiu a não ser em virtude de minha solidão, de minha fome por ela. Uma Paris tão vasta! Demoraria uma vida inteira para explorá-la de novo. Esta Paris, cuja chave só eu possuo, não se presta bem a uma excursão, mesmo com a melhor das intenções; é uma Paris que tem de ser vivida, que tem de ser experimentada cada dia em mil formas diferentes de tortura, uma Paris que cresce dentro da gente como um câncer, e cresce e cresce até nos devorar.
[Henry Miller, trecho de Trópico de Câncer]
Durante sete anos andei, dia e noite, só com uma coisa na mente: ela. Se houvesse um cristão tão fiel a seu Deus quanto eu a ela, nós todos seríamos Jesus Cristo. Dia e noite pensava nela, mesmo quando a estava enganando. E agora às vezes, bem no meio das coisas, quando sinto que estou absolutamente livre disto tudo, de repente, ao virar uma esquina talvez, surge uma pequena praça, algumas árvores e um banco, um lugar deserto onde ficamos em pé e discutimos, onde nos deixamos mutuamente loucos com ferozes cenas de ciúmes. Sempre algum lugar deserto, como a Place de l’Estrapade, por exemplo, ou aquelas ruas sujas e lúgubres perto da Mesquita ou ao longo daquele túmulo aberto que é a Avenue de Breteuil, a qual às dez horas da manhã é tão silenciosa, tão morta que faz a gente pensar em homicídio e suicídio, qualquer coisa que possa criar um vestígio de drama humano. Quando percebo que ela partiu, talvez para sempre, um grande vazio se abre e sinto que estou caindo, caindo, caindo no espaço profundo e negro. E isto é pior do que lágrimas, mais profundo que o pesar, a dor ou a tristeza; é o abismo em que lançaram Satã. Não há meio de subir de volta, não há raio de luz, nem som de voz humana ou toque de mão humana.
Quantas mil vezes, caminhando pelas ruas à noite, perguntei a mim mesmo se não voltaria jamais o dia em que ela estivesse ao meu lado: todos aqueles olhares ansiosos que lancei aos edifícios e estátuas... Olhava para eles tão esfomeadamente, tão desesperadamente, que agora meus pensamentos devem ter-se tornado parte dos próprios edifícios e estátuas, que devem estar saturados pela minha angústia. Eu não podia também deixar de refletir que quando caminhávamos lado a lado por essas ruas lúgubres e sujas, agora tão penetradas por meu sonho e minha saudade, ela não observara nada, não sentira nada: eram como quaisquer outras ruas para ela, um pouco mais sórdidas talvez, mais nada. Ela não se lembraria de que em certa esquina parei para amarrar os cordões dos seus sapatos, observei o lugar em que seu pé havia pousado, e que aquilo ali ficaria eternamente, mesmo após as catedrais terem sido demolidas e toda a civilização latina ter sido arrasada para sempre.
Descendo a Rue Lhomond certa noite, num acesso de extraordinária angústia e desolação. algumas coisas se me revelaram com pungente clareza. Não sei se foi por eu ter tantas vezes caminhado por essa rua em amargura e desespero, ou a lembrança de uma frase que ela disse uma noite, quando estávamos na Place Lucien Herr. “Por que não me mostra aquela Paris”, disse ela, “sobre a qual você escreveu?”. Uma coisa eu sei, que à lembrança daquelas palavras percebi de repente a impossibilidade de revelar-lhe a Paris que eu chegara a conhecer, a Paris cujos arrondissements são indefinidos, uma Paris que nunca existiu a não ser em virtude de minha solidão, de minha fome por ela. Uma Paris tão vasta! Demoraria uma vida inteira para explorá-la de novo. Esta Paris, cuja chave só eu possuo, não se presta bem a uma excursão, mesmo com a melhor das intenções; é uma Paris que tem de ser vivida, que tem de ser experimentada cada dia em mil formas diferentes de tortura, uma Paris que cresce dentro da gente como um câncer, e cresce e cresce até nos devorar.
[Henry Miller, trecho de Trópico de Câncer]
quarta-feira, março 02, 2005
Casa dos espelhos
Não me espantei quando me vi estendida sobre um colchão branco, no chão de uma sala que não conhecia, ao lado de alguém que nunca vira antes. Cartas e vivas, ali estávamos; era um estar-sendo solto e franco, ânsia de vida, a falta de arestas do círculo. Estendida sobre o colchão, abri o livro e mostrei a ele alguma passagem significativa, da qual agora não me recordo, mas o que realmente importa é que estávamos deitados lado a lado, eu de barriga para baixo, meus pés balançando enquanto Lou Reed cantava.
Eu havia tirado as botas e pairava sobre nós um calor confortável como uma luz, um instante de poeira fina que assentava em absoluto silêncio sobre os móveis, naquela hora vespertina acolhedora e cheia de certezas. Não havia espaços vazios. Era bom estar ali, traçando um caminho de artista que, com sua mão segura, segue o que lhe dita a inspiração. Eu a musa, ele o observador, o quadro nascendo manso, sem outras possibilidades: antes, era um momento impossível, destes que germinam fechados. Nós, criaturas pictográficas, não pensávamos em fuga porque não havia essa alternativa.
(Havia também o espelho, ou aquilo a que chamamos em silêncio de espelho. E quando digo que chamamos, não quer dizer que nomeamos algo como “espelho”; chamamos porque sabíamos, acima de tudo, que era necessário haver um espelho para que a realidade fosse explicada. O espelho, então, constituía parte integrante desse todo que desenhávamos com cuidado e ao mesmo tempo descuidadamente, como seguindo um roteiro interior que conhecíamos, estranho isso, de muito e muito tempo, sabendo ser improvável e paranormal que soubéssemos mas ainda assim. Poderia também ser cidade, chave, mariposa ou caleidoscópio, e tudo estaria perfeitamente explicado da mesma forma. Mas era espelho.)
Estranha sincronia aquela que me fez apoiar-me sobre o braço esquerdo enquanto era cingida pelo braço esquerdo dele. Estranha porque pela primeira vez senti que não havia contra-razões, que tudo era razão e plausível, até mesmo aquele braço longo cingindo-me pela cintura com uma naturalidade que poderia ser considerada ousadia, não fosse a ausência de contra-razões. Como não havia espaços vazios, percebi subitamente que o nosso estar ali era um conjunto de nãos enviesados, de ausências e faltas que sob outras circunstâncias, quem sabe, produziriam um mal-estar nítido e fatal. Em cada negativa, no entanto, ocultava-se uma dezena de afirmações, como a sombra de uma árvore que esconde uma trilha de formigas.
Nesta altura eu havia descoberto os olhos dele, e a única coisa a fazer quando se está diante de uns olhos que são o exato oposto dos seus é olhá-los e fixá-los, espantar-se com mais aquele paralelismo espelhado misterioso que não vem em caixas ou latas ou embrulhos de supermercado. Aquela construção inversamente proporcional, tão correta em quantidade, nas doses perfeitas dos matizes, aquilo assustador e no entanto possível porque estava ali, firme, incontestável. Aquilo que por existir quase altera a configuração dos meus olhos, que quiseram subitamente avermelhar-se e acabariam transformando-se em algo diferente do que viam. Os tons castanhos enfeitados de verde, os tons verdes enfeitados de castanho. Associações fáceis, avelãs no inverno, esquecidas em um canto de floresta, recobertas de musgo; ou a grama tostando no verão inclemente de um jardim sem chuvas.
(A constatação da existência do espelho se fez de forma silenciosa, como não poderia deixar de ser. Eu, se tivesse maior ciência das coisas e se conhecesse melhor os homens, diria que a idéia do espelho nascera ao mesmo tempo para mim e para ele, porque não posso duvidar da sincronia. Quando a natureza acerta não há o que discutir, e por isso pensei que talvez o surgimento do espelho entre nossas relações tivesse acontecido não apenas porque necessário, mas também de forma simultânea. Não havia porque duvidar, aqueles olhos ao contrário diziam tudo o que era preciso dizer sobre a indefectível existência do espelho. De todo modo, simultânea ou não, a idéia de espelho ultrapassava ali as raízes do tempo para deitar-se como um gato velho e invisível sobre nós.)
Um quarto de hora depois (cabe aqui uma explicação: não queria saber das horas, mas me parece desejável agora dar uma dimensão exata em minutos, e um quarto de hora, todos sabem, são quinze e apenas quinze), pois um quarto de hora depois (depois do quê?, quererão saber, ao que respondo “depois é modo de dizer”), e dentro desse espaço de um quarto de hora, alteramos nossas posições sobre o colchão diversas vezes. Isso para explicar o motivo de, um quarto de hora depois, eu estar sentada e ele quase isso; não sei dizer se nos tocávamos (parece-me certo que sim, mas daquele jeito fantasmagórico que delineia todas as certezas ainda não concretizadas); nos olhávamos e não me recordo do que dizíamos naquele instante, como os que sofrem acidentes ou traumas e ao acordarem rodeados de parentes num hospital não sabem dizer o que aconteceu, e só disso consigo me lembrar: uns olhos crescendo junto ao meu rosto e um sorriso irretocável que se estendeu sobre mim como um pássaro (e aqui não cabe explicação alguma).
Sob a luz que nos cobria inteiramente, peguei-me pensando. O que ocorria, então, era uma mescla interessante entre a mente e o corpo, o pensamento e os sentidos. Eu racionalizava o que parecia ser apenas vital como o ar, o sol, a luz. Em linhas simultâneas, traçava histórias esquizofrênicas, e até mesmo pensei estar ficando louca quando me vi sobrepondo meu corpo sobre o dele, abstraindo-me da carne para entrar no território do mágico, do inefável. Estive a um passo de lhe dizer uma centena de coisas, mas no mesmo instante entendia que nada havia para ser dito. Eu mesma tratei de me censurar: não pense, não pense. Éramos então sombras estranhas porque pálidas, porque nítidas, envolvidas na estranha tarefa de dar continuidade e legitimidade ao espelho.
(Nos movíamos perfeitamente sincronizados e isso só pode ser atribuído à existência do espelho, este elemento perturbador a nos guiar os gestos e também as palavras. Brincávamos de “ser igual” sem nem mesmo termos manifestado o desejo de brincar assim, mas era desse modo que as coisas sucediam sobre o colchão branco. Se não fosse o espelho seríamos desajeitados e cegos como bebês, mas ali demonstrávamos em cada instante e em cada suspiro os melhores reflexos. Este balé perdurou por algumas horas, e disso só sei porque o céu foi escurecendo e subitamente era noite alta.)
Não havia muitas brechas. O pensamento começava a se insinuar, envolvido em racionalidade, rápido como um tiro, mas no entanto eu tratava de sufocá-lo e, como estávamos sob os auspícios do espelho, penso que com ele também ocorria essa fuga desesperada do pensar. Eu assistia ao seu sorriso-pássaro e me enlevava com as palavras impensadas, frágeis, flutuantes, deixando-me à deriva nas lembranças. Como era possível? Carne, pássaro, olhos, livro, metrô, telefone, eu me respondia, e ele me respondia com um silêncios simples e densos. Telefone: descobertas e paralelismos a nos guiar por esse fio de fatos, essa estranhíssima condição montada e disposta de tal forma que nos fora vedada a porta de saída. Desmanchava-me em encantamentos, como boa mulher que sou, procurando uma posição metafísica confortável naquela estrada que era um fiapo a se estender sobre um abismo.
(Uma das características mais estranhas dos espelhos é o fato de que, quando dispostos um diante do outro, eles passam a se refletir até o limite de suas entranhas. Não é fácil para o observador delimitar com exatidão onde morre o horizonte de um espelho, mas uma coisa fica sempre evidente: há um horizonte mais palpável do que o final de um arco-íris, isso sim um espetáculo interminável nas suas extremidades que não existem. Um espelho diante do outro se perde ao longe, que também é dentro, e por ser dentro deve ter um fim, que diabos. Essa perda é fria e pressupõe ausência.)
Mesmo afastando os pensamentos com muita energia, sabíamos que chegaria a hora em que tudo se desmancharia em poeira e lembrança. Do lado de fora das janelas e dos dias de folga havia uma vida bem complicada e cheia das inevitáveis distorções. Não tínhamos uma ilha para fugir, e por isso a sombra a nos espiar, uma velha de rosto duro e grandes óculos de aro marrom. Talvez por isso tenhamos, no dia seguinte e depois de tanta coisa que fizemos na tentativa de prolongar o instante fatal, montado uma cena tão bela quanto tristonha. Envoltos pela penumbra do final da tarde, o quarto azulado e eu sentada no colo dele, imóvel, aprisionada num abraço daqueles que não terminam e durante os quais tudo o que se deseja é murchar até atingir o tamanho de uma formiga, para caber num bolso de casaco. Nossas dores eram somadas e não desapareciam: afundavam-se como flechas de veneno e lágrimas.
...
[Marpessa - conto não concluído]
Não me espantei quando me vi estendida sobre um colchão branco, no chão de uma sala que não conhecia, ao lado de alguém que nunca vira antes. Cartas e vivas, ali estávamos; era um estar-sendo solto e franco, ânsia de vida, a falta de arestas do círculo. Estendida sobre o colchão, abri o livro e mostrei a ele alguma passagem significativa, da qual agora não me recordo, mas o que realmente importa é que estávamos deitados lado a lado, eu de barriga para baixo, meus pés balançando enquanto Lou Reed cantava.
Eu havia tirado as botas e pairava sobre nós um calor confortável como uma luz, um instante de poeira fina que assentava em absoluto silêncio sobre os móveis, naquela hora vespertina acolhedora e cheia de certezas. Não havia espaços vazios. Era bom estar ali, traçando um caminho de artista que, com sua mão segura, segue o que lhe dita a inspiração. Eu a musa, ele o observador, o quadro nascendo manso, sem outras possibilidades: antes, era um momento impossível, destes que germinam fechados. Nós, criaturas pictográficas, não pensávamos em fuga porque não havia essa alternativa.
(Havia também o espelho, ou aquilo a que chamamos em silêncio de espelho. E quando digo que chamamos, não quer dizer que nomeamos algo como “espelho”; chamamos porque sabíamos, acima de tudo, que era necessário haver um espelho para que a realidade fosse explicada. O espelho, então, constituía parte integrante desse todo que desenhávamos com cuidado e ao mesmo tempo descuidadamente, como seguindo um roteiro interior que conhecíamos, estranho isso, de muito e muito tempo, sabendo ser improvável e paranormal que soubéssemos mas ainda assim. Poderia também ser cidade, chave, mariposa ou caleidoscópio, e tudo estaria perfeitamente explicado da mesma forma. Mas era espelho.)
Estranha sincronia aquela que me fez apoiar-me sobre o braço esquerdo enquanto era cingida pelo braço esquerdo dele. Estranha porque pela primeira vez senti que não havia contra-razões, que tudo era razão e plausível, até mesmo aquele braço longo cingindo-me pela cintura com uma naturalidade que poderia ser considerada ousadia, não fosse a ausência de contra-razões. Como não havia espaços vazios, percebi subitamente que o nosso estar ali era um conjunto de nãos enviesados, de ausências e faltas que sob outras circunstâncias, quem sabe, produziriam um mal-estar nítido e fatal. Em cada negativa, no entanto, ocultava-se uma dezena de afirmações, como a sombra de uma árvore que esconde uma trilha de formigas.
Nesta altura eu havia descoberto os olhos dele, e a única coisa a fazer quando se está diante de uns olhos que são o exato oposto dos seus é olhá-los e fixá-los, espantar-se com mais aquele paralelismo espelhado misterioso que não vem em caixas ou latas ou embrulhos de supermercado. Aquela construção inversamente proporcional, tão correta em quantidade, nas doses perfeitas dos matizes, aquilo assustador e no entanto possível porque estava ali, firme, incontestável. Aquilo que por existir quase altera a configuração dos meus olhos, que quiseram subitamente avermelhar-se e acabariam transformando-se em algo diferente do que viam. Os tons castanhos enfeitados de verde, os tons verdes enfeitados de castanho. Associações fáceis, avelãs no inverno, esquecidas em um canto de floresta, recobertas de musgo; ou a grama tostando no verão inclemente de um jardim sem chuvas.
(A constatação da existência do espelho se fez de forma silenciosa, como não poderia deixar de ser. Eu, se tivesse maior ciência das coisas e se conhecesse melhor os homens, diria que a idéia do espelho nascera ao mesmo tempo para mim e para ele, porque não posso duvidar da sincronia. Quando a natureza acerta não há o que discutir, e por isso pensei que talvez o surgimento do espelho entre nossas relações tivesse acontecido não apenas porque necessário, mas também de forma simultânea. Não havia porque duvidar, aqueles olhos ao contrário diziam tudo o que era preciso dizer sobre a indefectível existência do espelho. De todo modo, simultânea ou não, a idéia de espelho ultrapassava ali as raízes do tempo para deitar-se como um gato velho e invisível sobre nós.)
Um quarto de hora depois (cabe aqui uma explicação: não queria saber das horas, mas me parece desejável agora dar uma dimensão exata em minutos, e um quarto de hora, todos sabem, são quinze e apenas quinze), pois um quarto de hora depois (depois do quê?, quererão saber, ao que respondo “depois é modo de dizer”), e dentro desse espaço de um quarto de hora, alteramos nossas posições sobre o colchão diversas vezes. Isso para explicar o motivo de, um quarto de hora depois, eu estar sentada e ele quase isso; não sei dizer se nos tocávamos (parece-me certo que sim, mas daquele jeito fantasmagórico que delineia todas as certezas ainda não concretizadas); nos olhávamos e não me recordo do que dizíamos naquele instante, como os que sofrem acidentes ou traumas e ao acordarem rodeados de parentes num hospital não sabem dizer o que aconteceu, e só disso consigo me lembrar: uns olhos crescendo junto ao meu rosto e um sorriso irretocável que se estendeu sobre mim como um pássaro (e aqui não cabe explicação alguma).
Sob a luz que nos cobria inteiramente, peguei-me pensando. O que ocorria, então, era uma mescla interessante entre a mente e o corpo, o pensamento e os sentidos. Eu racionalizava o que parecia ser apenas vital como o ar, o sol, a luz. Em linhas simultâneas, traçava histórias esquizofrênicas, e até mesmo pensei estar ficando louca quando me vi sobrepondo meu corpo sobre o dele, abstraindo-me da carne para entrar no território do mágico, do inefável. Estive a um passo de lhe dizer uma centena de coisas, mas no mesmo instante entendia que nada havia para ser dito. Eu mesma tratei de me censurar: não pense, não pense. Éramos então sombras estranhas porque pálidas, porque nítidas, envolvidas na estranha tarefa de dar continuidade e legitimidade ao espelho.
(Nos movíamos perfeitamente sincronizados e isso só pode ser atribuído à existência do espelho, este elemento perturbador a nos guiar os gestos e também as palavras. Brincávamos de “ser igual” sem nem mesmo termos manifestado o desejo de brincar assim, mas era desse modo que as coisas sucediam sobre o colchão branco. Se não fosse o espelho seríamos desajeitados e cegos como bebês, mas ali demonstrávamos em cada instante e em cada suspiro os melhores reflexos. Este balé perdurou por algumas horas, e disso só sei porque o céu foi escurecendo e subitamente era noite alta.)
Não havia muitas brechas. O pensamento começava a se insinuar, envolvido em racionalidade, rápido como um tiro, mas no entanto eu tratava de sufocá-lo e, como estávamos sob os auspícios do espelho, penso que com ele também ocorria essa fuga desesperada do pensar. Eu assistia ao seu sorriso-pássaro e me enlevava com as palavras impensadas, frágeis, flutuantes, deixando-me à deriva nas lembranças. Como era possível? Carne, pássaro, olhos, livro, metrô, telefone, eu me respondia, e ele me respondia com um silêncios simples e densos. Telefone: descobertas e paralelismos a nos guiar por esse fio de fatos, essa estranhíssima condição montada e disposta de tal forma que nos fora vedada a porta de saída. Desmanchava-me em encantamentos, como boa mulher que sou, procurando uma posição metafísica confortável naquela estrada que era um fiapo a se estender sobre um abismo.
(Uma das características mais estranhas dos espelhos é o fato de que, quando dispostos um diante do outro, eles passam a se refletir até o limite de suas entranhas. Não é fácil para o observador delimitar com exatidão onde morre o horizonte de um espelho, mas uma coisa fica sempre evidente: há um horizonte mais palpável do que o final de um arco-íris, isso sim um espetáculo interminável nas suas extremidades que não existem. Um espelho diante do outro se perde ao longe, que também é dentro, e por ser dentro deve ter um fim, que diabos. Essa perda é fria e pressupõe ausência.)
Mesmo afastando os pensamentos com muita energia, sabíamos que chegaria a hora em que tudo se desmancharia em poeira e lembrança. Do lado de fora das janelas e dos dias de folga havia uma vida bem complicada e cheia das inevitáveis distorções. Não tínhamos uma ilha para fugir, e por isso a sombra a nos espiar, uma velha de rosto duro e grandes óculos de aro marrom. Talvez por isso tenhamos, no dia seguinte e depois de tanta coisa que fizemos na tentativa de prolongar o instante fatal, montado uma cena tão bela quanto tristonha. Envoltos pela penumbra do final da tarde, o quarto azulado e eu sentada no colo dele, imóvel, aprisionada num abraço daqueles que não terminam e durante os quais tudo o que se deseja é murchar até atingir o tamanho de uma formiga, para caber num bolso de casaco. Nossas dores eram somadas e não desapareciam: afundavam-se como flechas de veneno e lágrimas.
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[Marpessa - conto não concluído]
quarta-feira, fevereiro 16, 2005
...
Estranhando o silêncio ?
Meu amor, você errou comigo.
Resolveu que sabia tudo o que eu tinha para dizer.
Que eu seria como todo o resto; brancas nuvens no teu caminho.
Eu escrevi minhas feridas, eu contei tantas mentiras.
Justifiquei cada silêncio com frases e biombos.
Ter te amado tão longamente não faz de mim eterno amante engaiolado.
Não há nada que sustente por muito tempo um jogo de cartas marcadas.
Você nua ao amanhecer, ah, eu quis que fosse até o final.
Ansiei por você mas você não estava realmente comigo.
Então querida, estou indo também.
Meu amor, você agora está sozinha.
A festa acabou, os comensais foram embora.
Amor da minha vida, não há ninguém em casa.
Nada mais pelo que esperar.
[Gil Brandão, cronópio primeiro e único, inexplicável]
Estranhando o silêncio ?
Meu amor, você errou comigo.
Resolveu que sabia tudo o que eu tinha para dizer.
Que eu seria como todo o resto; brancas nuvens no teu caminho.
Eu escrevi minhas feridas, eu contei tantas mentiras.
Justifiquei cada silêncio com frases e biombos.
Ter te amado tão longamente não faz de mim eterno amante engaiolado.
Não há nada que sustente por muito tempo um jogo de cartas marcadas.
Você nua ao amanhecer, ah, eu quis que fosse até o final.
Ansiei por você mas você não estava realmente comigo.
Então querida, estou indo também.
Meu amor, você agora está sozinha.
A festa acabou, os comensais foram embora.
Amor da minha vida, não há ninguém em casa.
Nada mais pelo que esperar.
[Gil Brandão, cronópio primeiro e único, inexplicável]
sábado, fevereiro 12, 2005
Morte
Vigiavam-se mutuamente no último vagão do trem expresso. Ele e ela, de tanto pegarem o mesmo trem e o mesmo vagão, acabaram por simpatizar um com o outro, estabelecendo quase por acaso aquela cumplicidade que envolve os participantes de um jogo diário e repetitivo. Por volta das seis e meia da manhã estavam já postados em seus lugares; naquela estação, uma das primeiras do longo trajeto, o movimento era suficientemente fraco àquela hora para permitir que os passageiros conseguissem lugares para se sentar. Ele e ela raras vezes viajavam de pé e nunca conseguiram sentar-se um ao lado do outro, mas era certo que nem sequer tivessem conscientemente tentado algo nesse sentido, preferindo manterem-se a uma distância segura (segura?) e respeitosa, apenas apoiando-se um ao outro na maçante viagem cotidiana para o mesmo lugar de sempre, tornando o trajeto menos enfadonho. As pessoas concentram-se em coisas diversas durante uma viagem: seus jornais ou revistas, um cochilo, alguém por companhia para conversar ou simplesmente a paisagem de costume, que por vezes traz algum novo encanto, uma novidade qualquer. Ele e ela, no entanto, permaneciam alheios às distrações possíveis e vigiavam-se mutuamente, cada qual em seu banco, no último vagão do trem expresso.
Engraçado que houvessem, desse modo e pelo hábito, estabelecido um canal de comunicação impecavelmente silencioso, que os resguardava de sobressaltos e os deixava confortáveis, imersos em suas solidões e livres para contemplar-se com o canto dos olhos, cheios de discrição. Ele e ela aparentavam ter a mesma idade, quarenta anos ou pouco menos. Eram ambos sóbrios no vestir, o que lhes dava o ar de funcionários públicos, e talvez realmente o fossem, mas com toda certeza ocupavam cargos modestos, porque o trem de subúrbio, como se sabe, nunca foi para os ricos. Este modo que inventaram de se comunicar era tão funcional e certeiro que conseguiam até saber do estado de espírito um do outro, bastando para isso um olhar mais demorado, um torcer de lábios, o franzir da testa, as mãos agitadas ou os pés balançando-se. Liam-se nas faces e nos modos do corpo, a cada nova manhã. Em uma delas, ela mostrara-se particularmente feliz – o sistema de comunicação que criaram, no entanto, não era tão refinado a ponto de desvendar motivos – e olhou-o mais firmemente do que de hábito. Ele correspondeu, sorrindo suavemente. E ela, antes de descer em sua estação (duas antes dele), esticou o dedo muito branco e fino e rabiscou rapidamente uma palavra de cinco letras no vidro imundo: seu nome.
Era um sábado e passava das dezenove horas. Não se encontravam aos sábados; aquilo fora acidental, mas ambos pensaram com seus próprios botões, surpresos: existem acidentes assim? Há meses vigiavam-se de segunda a sexta. Era certo que aos sábados sentissem falta da vigília, porque não tinham mesmo muito o que fazer de suas vidas aos finais de semana, ele descanso e livros, ela crochê e sobrinhos, talvez houvesse uma força tremenda naquela vigília diária que tivesse, desta vez, os impelido a andar de trem no sábado, uma vontade súbita de visitar um parente longe ou ir a um cinema diferente, e acabaram regressando à cidade na mesma hora. Ele sentiu o coração varando a camisa; ela o observava, dura e tensa, tirando o máximo proveito de sua visão periférica e sem ousar olhá-lo mais de frente. Coincidência? Não existem coincidências tão exatas, era a força da vigília, e de que adiantava questionar isso, se tarde demais? Ele estremeceu. Um arrepio esquisito o tomou de assalto e o sacudiu por dentro, algo indefinível. Desta vez desceriam na mesma estação. E depois de tantos meses, ela cogitou, subitamente fria, não seria possível impedir o desenrolar dos fatos, a seqüência que de repente se afigurava como natural e perfeitamente plausível, desejável acima de todas as forças em contrário, algo que romperia um suposto hímen que defende a natureza humana da natureza humana todo o tempo e que agora apresentava-se como uma película transparente, fina e porosa, pronta para ser rasgada com bastante energia. Tanta coisa pensa-se em um trem de subúrbio que acabamos chegando muito rápido ao nosso destino, às vezes sem desconfiar que o destino quer que assim seja. Ela se levantou e ficou próxima à porta. Ele parou a um passo atrás. Aguardavam a porta se abrir, no que pareceu o tempo do arrastar de um caracol na grama densa. Gotas de suor aqui e ali, invadindo cada dobra de pele. A porta se abriu. Desceram. Ela voltou-se para ele e encarou-o com firmeza, uns olhos azuis terrivelmente sérios. Tomou-o pela mão. Deixaram a estação rapidamente, sem palavras.
Após alguns minutos de caminhada, entraram por uma rua de paralelepípedos. Ela não tinha como saber o que ele estava pensando, mas de repente não havia tempo e quase corria, para evitar que o espaço a ser percorrido transformasse o impulso em debilidade, cogitação, desistência. Ele, por sua vez, enquanto os pés e pernas se moviam, a cabeça ia em chamas, confusa como uma labareda: que havia feito, que estavam fazendo? Pararam, enfim, diante de uma casa muito pequena. Não era possível divisá-la bem, a rua mal iluminada como tantas nos subúrbios, mas notava-se que era muito velha; nas paredes semi-ocultas pela penumbra, a tinta descascada revelava várias camadas de cores sobrepostas. Ao redor, o mato crescia desordenado. Via-se aqui e ali indícios de alguma manutenção: um ancinho, uma pá, alguns sacos grandes de lixo, mas ela (moraria sozinha?) aparentemente não conseguia realizar as tarefas.
Ela girou a chave, mexeu na maçaneta. Um odor peculiar desprendeu-se do interior da casa; ele tentou por um instante adivinhá-lo, antes que seu olfato se acostumasse à atmosfera da sala estreita e fria. Identificou o cheiro: uma mistura de mirra, forte e penetrante, com umidade e talvez um outro aroma, não completamente identificável, de algo que se fecha, como poderia explicar? Um cheiro de baú. Do teto, pendia uma lâmpada muito fraca, e o teto era tão baixo que ele teve a sensação de que poderia tocá-lo sem esticar os pés. Pela primeira vez desde a estação ele a olhara; ela parecia mais pálida, mais frágil, estranhamente aterrorizada, mas era ele quem deveria estar assustado, porque ela mandava , a casa era dela, cheirando a mirra, umidade e baú.
Atravessaram um corredor escuro. Ele tocou as paredes e teve uma sensação desagradável de ter posto a mão em algo macio como musgo. Arrepiou-se. Dobraram o corredor, as mãos dele iam suadas, aquele calor sob o frio, o frio daquela noite inverossímil. Entraram em um aposento que ele entendeu ser o quarto, só poderia ser, somente isso era possível naquele momento. Ela riscou um fósforo e seu rosto cresceu diante dele. Acendeu duas velas grossas que estavam à cabeceira de uma cama antiga, com dossel, ele que nunca vira uma cama com dossel, pela primeira vez observava um quarto ao estilo vitoriano, os móveis sólidos, escuros, a janela enorme, uma penteadeira, um espelho oval com moldura de madeira. Ela puxou a cortina, ocultando a janela e revelando o tecido verde-escuro grosso, de aspecto aveludado. Tudo muito diferente do restante da casa.
Ele não teve tempo para contemplar os detalhes do quarto alaranjado pelas chamas. Ela aproximou-se, a expressão novíssima, o brilho dourado nos olhos. Puxou-o para si. Houve uma queda: jogaram-se um sobre o outro sem dizer palavra, como sempre fora nas manhãs do trem que agora pareciam irreais e ridículas, tão ridículas as manhãs no trem, ambos se espiando como dois ladrões, como se devessem algo ao mundo, as pupilas de medo a vigiar e a tomar cuidado para não serem notados mesmo sabendo que era inútil tomar qualquer cuidado, seriam notados, ambos, os olhares, e desejavam isso com toda a fúria dos seus corações, sabiam disso agora, onde os segredos subitamente se revelaram entre cabelos e beijos úmidos, línguas se chocando e os olhos semicerrados, força nas mãos, força nos músculos das pernas a tornar cada vez mais ridícula a vigília hoje que a Verdade estava do lado deles, as coxas dela eram incrivelmente firmes e o prendiam, agora que tudo seria lido e relido de outra maneira, agora que não havia porvir nem dias ou manhãs de trem e uma câimbra deliciosa o atacava, o que não o impedia, era impossível parar neste momento, justo agora que descobrira no meio das costas dela uma peça de xadrez, uma rainha negra tatuada bem no meio das costas brancas e alongadas daquela cujo nome tinha cinco letras, ela esvaindo-se e chamando calada, arfante, seu corpo a gritar, a boca úmida a se abrir esperando por ele que não podia mais esperar, ela posicionava-se favoravelmente para que ele pudesse enfim satisfazê-la e afogar-se, matar-se ali, morrer com as mãos firmemente presas às ancas daquela mulher com quem jamais trocara um bom-dia, aquela mulher do trem que era agora a mulher Rainha Negra, a cornucópia de prazeres que tornava o passado perdido, esquecido, sem significado algum, longe, nunca mais tomaria o trem porque não poderia, impensável o trem enquanto molhava-se nela, enquanto era ela quem dava o ritmo porque sentava sobre ele, olhavam-se nos olhos com muita segurança, ela como que possuída por um demônio ou mais de um, escandalizando o quarto vitoriano, queimada pela luz das velas, ele não podia fazer mais nada além de apertá-la, amassar-lhe os seios, que mais faria? Ela mandava. Olhava-o e movia-se com mais velocidade, uma das mãos quase arrancando o dossel, ele cingindo-lhe a cintura e o desespero tomando conta dela, mulher Rainha Negra, o corpo sendo deliciosamente violentado, o hímen da natureza rompido, muros derrubados com estrondo, a arrebentação espumosa na praia, ele só pôde olhá-la sobre seus quadris e pensar consigo “linda”, a absoluta falta do que dizer ou mesmo pensar, não havia pensamentos, ele descobriu tremendo de gozo que nada, nada existia além da Rainha Negra e seu belo corpo sacudido por espasmos terríveis, boca aberta e olhos fechados, nada, e todo o resto era só filosofia. Inclusive o verbo, e o sono.
...
Desde aquela noite, muito tempo se passou. É certo que os anos corrompem a tudo, sem piedade; no entanto, guardo acesas as lembranças daquilo, tão acesas quanto estavam as duas velas, ardentes na escuridão. Não gosto de me recordar do momento em que acordei e tive que deixá-la, dormindo como um anjo de cera. Foi bonito o beijo que dei em sua Rainha Negra, mas também foi triste porque eu sabia que nada mais existia, o antes e o depois eram invenções tolas do intelecto, abstrações somente. Não se aplicavam a mim, nem a ela. Eu deixara de ser eu mesmo, e ela – eu jamais soube coisa alguma sobre ela além daquilo que me foi dado vislumbrar na noite em que me levou pela mão ao seu quarto vitoriano, na humilde casinha de subúrbio cheirando a mirra, umidade e baú.
Continuei a vê-la. A Terra voltou ao seu eixo, eu continuei a pegar o trem, e também ela continuou a pegar o trem na mesma estação. Na segunda-feira imediatamente após aquela noite nos olhamos constrangidos. Ela, no entanto, como que a deixar claro que as regras continuavam as mesmas, virou os olhos para a janela e seguiu por toda a viagem a observar-me valendo-se de seus artifícios, os olhos oblíquos tal qual uma Capitu, dissimuladíssimos. Entendi que deveria ser assim.
Já faz mais de vinte anos. Não nos casamos, não tivemos filhos. O peso do tempo é demasiado e noto seus estragos quando me olho no espelho todos os dias. Quanto a ela, continuou bela e fresca por alguns anos, mas de algum tempo para cá principiou a ceder, a cansar-se de manter-se assim sempre jovem. A flor começou a fenecer, como é natural, mas mesmo perdendo o viço ela ainda me fazia sonhar de vez em quando. É engraçado quando está sentada próxima a uma janela e rabisca, como que para me provocar, seu nome de cinco letras no vidro poeirento. Chega até a sorrir, devagarzinho, como se não quisesse sorrir demais e gastar, desse modo, o gesto. Essa mulher é um grande mistério, que não pretendo desvelar.
Da última vez que a vi, parecia exausta, estranhamente sobrecarregada por uma carga invisível. Fantasiei: ela estava carregando ausências, vazios e reticências por todo canto, por onde quer que fosse. Nessa ocasião, vi escorrer de seus olhos uma lágrima amarelada. Tive nojo, dela e de mim, e um pouco de medo por ter um dia dado a ela a alcunha de espelho; então tive a certeza de que não havia mesmo mais nada além dela e aquela partida de xadrez que disputamos com tanta emoção e que agora é só lembrança.
Enquanto eu pensava, o trem parou e eu a vi descer muito antes da estação de costume. Fixei meus olhos nela, tão sobriamente vestida, uma senhora discreta e pálida como tantas. Adivinhando – e ela por certo adivinhara - , voltou-se para mim, encarou-me e sorriu, a boca aberta, os dentes corretamente enfileirados, perfeitos, brancos como os de uma adolescente de quinze anos. Fiquei espantado porque eu sabia que aqueles dentes eram verdadeiros, ainda iguais ao que eram há vinte anos e por certo iguais ao que seriam dali a cento e vinte anos. Fechei os olhos, me protegendo daquilo, e então ela se foi. Para nunca mais. Agora, hoje que tudo me falta, o que mais me dói é sentir-me tão morto como quando dormi naquela noite após o amor – mas sem ela ao meu lado, ela e seu nome de cinco letras grafado no vidro sujo de um vagão de trem, enchendo-me de assombro diante da vida.
[Marpessa - texto publicado originalmente na primeira edição do Aquele]
Vigiavam-se mutuamente no último vagão do trem expresso. Ele e ela, de tanto pegarem o mesmo trem e o mesmo vagão, acabaram por simpatizar um com o outro, estabelecendo quase por acaso aquela cumplicidade que envolve os participantes de um jogo diário e repetitivo. Por volta das seis e meia da manhã estavam já postados em seus lugares; naquela estação, uma das primeiras do longo trajeto, o movimento era suficientemente fraco àquela hora para permitir que os passageiros conseguissem lugares para se sentar. Ele e ela raras vezes viajavam de pé e nunca conseguiram sentar-se um ao lado do outro, mas era certo que nem sequer tivessem conscientemente tentado algo nesse sentido, preferindo manterem-se a uma distância segura (segura?) e respeitosa, apenas apoiando-se um ao outro na maçante viagem cotidiana para o mesmo lugar de sempre, tornando o trajeto menos enfadonho. As pessoas concentram-se em coisas diversas durante uma viagem: seus jornais ou revistas, um cochilo, alguém por companhia para conversar ou simplesmente a paisagem de costume, que por vezes traz algum novo encanto, uma novidade qualquer. Ele e ela, no entanto, permaneciam alheios às distrações possíveis e vigiavam-se mutuamente, cada qual em seu banco, no último vagão do trem expresso.
Engraçado que houvessem, desse modo e pelo hábito, estabelecido um canal de comunicação impecavelmente silencioso, que os resguardava de sobressaltos e os deixava confortáveis, imersos em suas solidões e livres para contemplar-se com o canto dos olhos, cheios de discrição. Ele e ela aparentavam ter a mesma idade, quarenta anos ou pouco menos. Eram ambos sóbrios no vestir, o que lhes dava o ar de funcionários públicos, e talvez realmente o fossem, mas com toda certeza ocupavam cargos modestos, porque o trem de subúrbio, como se sabe, nunca foi para os ricos. Este modo que inventaram de se comunicar era tão funcional e certeiro que conseguiam até saber do estado de espírito um do outro, bastando para isso um olhar mais demorado, um torcer de lábios, o franzir da testa, as mãos agitadas ou os pés balançando-se. Liam-se nas faces e nos modos do corpo, a cada nova manhã. Em uma delas, ela mostrara-se particularmente feliz – o sistema de comunicação que criaram, no entanto, não era tão refinado a ponto de desvendar motivos – e olhou-o mais firmemente do que de hábito. Ele correspondeu, sorrindo suavemente. E ela, antes de descer em sua estação (duas antes dele), esticou o dedo muito branco e fino e rabiscou rapidamente uma palavra de cinco letras no vidro imundo: seu nome.
Era um sábado e passava das dezenove horas. Não se encontravam aos sábados; aquilo fora acidental, mas ambos pensaram com seus próprios botões, surpresos: existem acidentes assim? Há meses vigiavam-se de segunda a sexta. Era certo que aos sábados sentissem falta da vigília, porque não tinham mesmo muito o que fazer de suas vidas aos finais de semana, ele descanso e livros, ela crochê e sobrinhos, talvez houvesse uma força tremenda naquela vigília diária que tivesse, desta vez, os impelido a andar de trem no sábado, uma vontade súbita de visitar um parente longe ou ir a um cinema diferente, e acabaram regressando à cidade na mesma hora. Ele sentiu o coração varando a camisa; ela o observava, dura e tensa, tirando o máximo proveito de sua visão periférica e sem ousar olhá-lo mais de frente. Coincidência? Não existem coincidências tão exatas, era a força da vigília, e de que adiantava questionar isso, se tarde demais? Ele estremeceu. Um arrepio esquisito o tomou de assalto e o sacudiu por dentro, algo indefinível. Desta vez desceriam na mesma estação. E depois de tantos meses, ela cogitou, subitamente fria, não seria possível impedir o desenrolar dos fatos, a seqüência que de repente se afigurava como natural e perfeitamente plausível, desejável acima de todas as forças em contrário, algo que romperia um suposto hímen que defende a natureza humana da natureza humana todo o tempo e que agora apresentava-se como uma película transparente, fina e porosa, pronta para ser rasgada com bastante energia. Tanta coisa pensa-se em um trem de subúrbio que acabamos chegando muito rápido ao nosso destino, às vezes sem desconfiar que o destino quer que assim seja. Ela se levantou e ficou próxima à porta. Ele parou a um passo atrás. Aguardavam a porta se abrir, no que pareceu o tempo do arrastar de um caracol na grama densa. Gotas de suor aqui e ali, invadindo cada dobra de pele. A porta se abriu. Desceram. Ela voltou-se para ele e encarou-o com firmeza, uns olhos azuis terrivelmente sérios. Tomou-o pela mão. Deixaram a estação rapidamente, sem palavras.
Após alguns minutos de caminhada, entraram por uma rua de paralelepípedos. Ela não tinha como saber o que ele estava pensando, mas de repente não havia tempo e quase corria, para evitar que o espaço a ser percorrido transformasse o impulso em debilidade, cogitação, desistência. Ele, por sua vez, enquanto os pés e pernas se moviam, a cabeça ia em chamas, confusa como uma labareda: que havia feito, que estavam fazendo? Pararam, enfim, diante de uma casa muito pequena. Não era possível divisá-la bem, a rua mal iluminada como tantas nos subúrbios, mas notava-se que era muito velha; nas paredes semi-ocultas pela penumbra, a tinta descascada revelava várias camadas de cores sobrepostas. Ao redor, o mato crescia desordenado. Via-se aqui e ali indícios de alguma manutenção: um ancinho, uma pá, alguns sacos grandes de lixo, mas ela (moraria sozinha?) aparentemente não conseguia realizar as tarefas.
Ela girou a chave, mexeu na maçaneta. Um odor peculiar desprendeu-se do interior da casa; ele tentou por um instante adivinhá-lo, antes que seu olfato se acostumasse à atmosfera da sala estreita e fria. Identificou o cheiro: uma mistura de mirra, forte e penetrante, com umidade e talvez um outro aroma, não completamente identificável, de algo que se fecha, como poderia explicar? Um cheiro de baú. Do teto, pendia uma lâmpada muito fraca, e o teto era tão baixo que ele teve a sensação de que poderia tocá-lo sem esticar os pés. Pela primeira vez desde a estação ele a olhara; ela parecia mais pálida, mais frágil, estranhamente aterrorizada, mas era ele quem deveria estar assustado, porque ela mandava , a casa era dela, cheirando a mirra, umidade e baú.
Atravessaram um corredor escuro. Ele tocou as paredes e teve uma sensação desagradável de ter posto a mão em algo macio como musgo. Arrepiou-se. Dobraram o corredor, as mãos dele iam suadas, aquele calor sob o frio, o frio daquela noite inverossímil. Entraram em um aposento que ele entendeu ser o quarto, só poderia ser, somente isso era possível naquele momento. Ela riscou um fósforo e seu rosto cresceu diante dele. Acendeu duas velas grossas que estavam à cabeceira de uma cama antiga, com dossel, ele que nunca vira uma cama com dossel, pela primeira vez observava um quarto ao estilo vitoriano, os móveis sólidos, escuros, a janela enorme, uma penteadeira, um espelho oval com moldura de madeira. Ela puxou a cortina, ocultando a janela e revelando o tecido verde-escuro grosso, de aspecto aveludado. Tudo muito diferente do restante da casa.
Ele não teve tempo para contemplar os detalhes do quarto alaranjado pelas chamas. Ela aproximou-se, a expressão novíssima, o brilho dourado nos olhos. Puxou-o para si. Houve uma queda: jogaram-se um sobre o outro sem dizer palavra, como sempre fora nas manhãs do trem que agora pareciam irreais e ridículas, tão ridículas as manhãs no trem, ambos se espiando como dois ladrões, como se devessem algo ao mundo, as pupilas de medo a vigiar e a tomar cuidado para não serem notados mesmo sabendo que era inútil tomar qualquer cuidado, seriam notados, ambos, os olhares, e desejavam isso com toda a fúria dos seus corações, sabiam disso agora, onde os segredos subitamente se revelaram entre cabelos e beijos úmidos, línguas se chocando e os olhos semicerrados, força nas mãos, força nos músculos das pernas a tornar cada vez mais ridícula a vigília hoje que a Verdade estava do lado deles, as coxas dela eram incrivelmente firmes e o prendiam, agora que tudo seria lido e relido de outra maneira, agora que não havia porvir nem dias ou manhãs de trem e uma câimbra deliciosa o atacava, o que não o impedia, era impossível parar neste momento, justo agora que descobrira no meio das costas dela uma peça de xadrez, uma rainha negra tatuada bem no meio das costas brancas e alongadas daquela cujo nome tinha cinco letras, ela esvaindo-se e chamando calada, arfante, seu corpo a gritar, a boca úmida a se abrir esperando por ele que não podia mais esperar, ela posicionava-se favoravelmente para que ele pudesse enfim satisfazê-la e afogar-se, matar-se ali, morrer com as mãos firmemente presas às ancas daquela mulher com quem jamais trocara um bom-dia, aquela mulher do trem que era agora a mulher Rainha Negra, a cornucópia de prazeres que tornava o passado perdido, esquecido, sem significado algum, longe, nunca mais tomaria o trem porque não poderia, impensável o trem enquanto molhava-se nela, enquanto era ela quem dava o ritmo porque sentava sobre ele, olhavam-se nos olhos com muita segurança, ela como que possuída por um demônio ou mais de um, escandalizando o quarto vitoriano, queimada pela luz das velas, ele não podia fazer mais nada além de apertá-la, amassar-lhe os seios, que mais faria? Ela mandava. Olhava-o e movia-se com mais velocidade, uma das mãos quase arrancando o dossel, ele cingindo-lhe a cintura e o desespero tomando conta dela, mulher Rainha Negra, o corpo sendo deliciosamente violentado, o hímen da natureza rompido, muros derrubados com estrondo, a arrebentação espumosa na praia, ele só pôde olhá-la sobre seus quadris e pensar consigo “linda”, a absoluta falta do que dizer ou mesmo pensar, não havia pensamentos, ele descobriu tremendo de gozo que nada, nada existia além da Rainha Negra e seu belo corpo sacudido por espasmos terríveis, boca aberta e olhos fechados, nada, e todo o resto era só filosofia. Inclusive o verbo, e o sono.
...
Desde aquela noite, muito tempo se passou. É certo que os anos corrompem a tudo, sem piedade; no entanto, guardo acesas as lembranças daquilo, tão acesas quanto estavam as duas velas, ardentes na escuridão. Não gosto de me recordar do momento em que acordei e tive que deixá-la, dormindo como um anjo de cera. Foi bonito o beijo que dei em sua Rainha Negra, mas também foi triste porque eu sabia que nada mais existia, o antes e o depois eram invenções tolas do intelecto, abstrações somente. Não se aplicavam a mim, nem a ela. Eu deixara de ser eu mesmo, e ela – eu jamais soube coisa alguma sobre ela além daquilo que me foi dado vislumbrar na noite em que me levou pela mão ao seu quarto vitoriano, na humilde casinha de subúrbio cheirando a mirra, umidade e baú.
Continuei a vê-la. A Terra voltou ao seu eixo, eu continuei a pegar o trem, e também ela continuou a pegar o trem na mesma estação. Na segunda-feira imediatamente após aquela noite nos olhamos constrangidos. Ela, no entanto, como que a deixar claro que as regras continuavam as mesmas, virou os olhos para a janela e seguiu por toda a viagem a observar-me valendo-se de seus artifícios, os olhos oblíquos tal qual uma Capitu, dissimuladíssimos. Entendi que deveria ser assim.
Já faz mais de vinte anos. Não nos casamos, não tivemos filhos. O peso do tempo é demasiado e noto seus estragos quando me olho no espelho todos os dias. Quanto a ela, continuou bela e fresca por alguns anos, mas de algum tempo para cá principiou a ceder, a cansar-se de manter-se assim sempre jovem. A flor começou a fenecer, como é natural, mas mesmo perdendo o viço ela ainda me fazia sonhar de vez em quando. É engraçado quando está sentada próxima a uma janela e rabisca, como que para me provocar, seu nome de cinco letras no vidro poeirento. Chega até a sorrir, devagarzinho, como se não quisesse sorrir demais e gastar, desse modo, o gesto. Essa mulher é um grande mistério, que não pretendo desvelar.
Da última vez que a vi, parecia exausta, estranhamente sobrecarregada por uma carga invisível. Fantasiei: ela estava carregando ausências, vazios e reticências por todo canto, por onde quer que fosse. Nessa ocasião, vi escorrer de seus olhos uma lágrima amarelada. Tive nojo, dela e de mim, e um pouco de medo por ter um dia dado a ela a alcunha de espelho; então tive a certeza de que não havia mesmo mais nada além dela e aquela partida de xadrez que disputamos com tanta emoção e que agora é só lembrança.
Enquanto eu pensava, o trem parou e eu a vi descer muito antes da estação de costume. Fixei meus olhos nela, tão sobriamente vestida, uma senhora discreta e pálida como tantas. Adivinhando – e ela por certo adivinhara - , voltou-se para mim, encarou-me e sorriu, a boca aberta, os dentes corretamente enfileirados, perfeitos, brancos como os de uma adolescente de quinze anos. Fiquei espantado porque eu sabia que aqueles dentes eram verdadeiros, ainda iguais ao que eram há vinte anos e por certo iguais ao que seriam dali a cento e vinte anos. Fechei os olhos, me protegendo daquilo, e então ela se foi. Para nunca mais. Agora, hoje que tudo me falta, o que mais me dói é sentir-me tão morto como quando dormi naquela noite após o amor – mas sem ela ao meu lado, ela e seu nome de cinco letras grafado no vidro sujo de um vagão de trem, enchendo-me de assombro diante da vida.
[Marpessa - texto publicado originalmente na primeira edição do Aquele]
quinta-feira, fevereiro 10, 2005
Antecâmara
(texto que é parte do meio de algo que ainda não tem começo nem fim)
E se aquela noite fosse claramente uma espécie de coágulo, um vórtex vermelho que sugasse tudo ao seu redor, inclusive o tempo e o espaço? Não haveria como saber enquanto permanecesse fora, a uma distância segura dos fatos. Ao mesmo tempo precisava provar que o coágulo existia e que era também de sua responsabilidade. Havia sua própria força em jogo, além daquelas outras, além da espantosa casualidade.
Seria, então, a sua noite do subliminar, a noite em que se afogaria sem temer a intensidade, mantendo firme a disposição racional de analisar tudo sob um ponto de vista não-emocional, posto que o emocional turva a visão do cientista, ainda que o que esteja sendo analisado seja o coágulo ou a consciência trêmula do inefável.
[Marpessa]
(texto que é parte do meio de algo que ainda não tem começo nem fim)
E se aquela noite fosse claramente uma espécie de coágulo, um vórtex vermelho que sugasse tudo ao seu redor, inclusive o tempo e o espaço? Não haveria como saber enquanto permanecesse fora, a uma distância segura dos fatos. Ao mesmo tempo precisava provar que o coágulo existia e que era também de sua responsabilidade. Havia sua própria força em jogo, além daquelas outras, além da espantosa casualidade.
Seria, então, a sua noite do subliminar, a noite em que se afogaria sem temer a intensidade, mantendo firme a disposição racional de analisar tudo sob um ponto de vista não-emocional, posto que o emocional turva a visão do cientista, ainda que o que esteja sendo analisado seja o coágulo ou a consciência trêmula do inefável.
[Marpessa]
quarta-feira, janeiro 26, 2005
quinta-feira, janeiro 20, 2005
Façamos de conta
Façamos de conta que foi só um vento, desses que cortam a pele no inverno ou anunciam tempestades no verão. Façamos de conta e esqueçamos, pensemos que talvez tenha sido só um sonho e que este sonho tenha sido afugentado com a primeira espreguiçada, ainda na cama quente. Deixemos que o tempo aos poucos soterre essa lembrança e que a coloque em seu devido lugar, em alguma das gavetas do arquivo, friazinha e acomodada com cuidado atrás de uma papeleta com seu nome-data-grau de importância.
Vamos ver quantos anos a lembrança perdurará antes de se desfazer em centenas de pedacinhos amarelentos; veremos se haverá alguém ainda interessado em dar uma olhada nela, em trazê-la para fora dos arquivos, espanar o pó e afugentar as traças, botá-la na janela para tomar um pouco de sol. Veremos se vai envelhecer, se vai perder a cor, murchar como uma rosa no meio de um livro. Prestemos atenção para o que acontece com essa lembrança: se reluz um pouquinho, se vibra para depois cair no chão abandonada, ou se apenas fica quieta esperando sua hora passar.
Façamos de conta que nada disso foi verdade e que a lembrança é somente a asa esquerda de um engano feliz. Desse modo podemos seguir incólumes, os olhos secos e um sorriso rasgado nos lábios, em frente, ignorando qualquer dor que porventura nasça, porque a dor é a asa direita. Fechemos as gavetas. Só as abriremos na próxima primavera.
[Marpessa]
Façamos de conta que foi só um vento, desses que cortam a pele no inverno ou anunciam tempestades no verão. Façamos de conta e esqueçamos, pensemos que talvez tenha sido só um sonho e que este sonho tenha sido afugentado com a primeira espreguiçada, ainda na cama quente. Deixemos que o tempo aos poucos soterre essa lembrança e que a coloque em seu devido lugar, em alguma das gavetas do arquivo, friazinha e acomodada com cuidado atrás de uma papeleta com seu nome-data-grau de importância.
Vamos ver quantos anos a lembrança perdurará antes de se desfazer em centenas de pedacinhos amarelentos; veremos se haverá alguém ainda interessado em dar uma olhada nela, em trazê-la para fora dos arquivos, espanar o pó e afugentar as traças, botá-la na janela para tomar um pouco de sol. Veremos se vai envelhecer, se vai perder a cor, murchar como uma rosa no meio de um livro. Prestemos atenção para o que acontece com essa lembrança: se reluz um pouquinho, se vibra para depois cair no chão abandonada, ou se apenas fica quieta esperando sua hora passar.
Façamos de conta que nada disso foi verdade e que a lembrança é somente a asa esquerda de um engano feliz. Desse modo podemos seguir incólumes, os olhos secos e um sorriso rasgado nos lábios, em frente, ignorando qualquer dor que porventura nasça, porque a dor é a asa direita. Fechemos as gavetas. Só as abriremos na próxima primavera.
[Marpessa]
sábado, janeiro 15, 2005
Visível, invisível
Às vezes era invisível, noutras vezes visível demais. Fazia sol de solidão, aquele céu azul que era uma afronta, e tanta gente andando de cá para lá. Estava invisível, agora, definitivamente invisível. Mas isso era o agora, a praça da igreja, o caminhar lento de pajem medieval, frase do poeta Vinícius "para uma menina com uma flor”, isso era o instante presente, uma sacola pesada de livros e revistas, o local marcado para um encontro.
Antes, instantes antes, estivera visível. Indo para o centro da cidade, estivera visível o bastante para ver também, retribuir a visão do outro, daquele outro perturbador que abaixara o vidro do carro para bolinar-se olhando para ela. Um choque, o vilipêndio, o medo primitivo dos estranhos, e nem era mais criança. Só que tem umas coisas que não ficam velhas. Então, o medo, ser ofendida assim por um estranho, obrigada a ver o que não esperava. Indefesa, à mercê, tão ruim sentir-se à mercê quando não queria. Isto está errado e incomoda, chega a doer. Ficou uns bons minutos sob os efeitos nocivos daquela ancestral maneira de temer os homens. Ela se soube mais visível que as luas cheias.
Visível demais. Andou pelas ruas; foi à biblioteca, um bom refúgio se não parasse para pensar nas barrigas das bibliotecárias, porque se pensasse, que tristeza, o pensamento não seria interrompido, rebentaria em ondas indômitas de associações inúmeras, que não dão mesmo trégua a uma pobre cabecinha visível. Adoráveis volumes embaixo do braço, vamos lá.
Passou em uma loja conhecida, almoçou com um conhecido, então visível porque o conhecido a olhava e falava com ela, um calor grande, uma da tarde. Almoçando, ele; ela, uma cerveja, que coisa me aconteceu, veja só você que absurdo. Ele diz: normal, essas coisas acontecem, cada doido... Ela tentando explicar o vilipêndio, mas as palavras, como já se sabe, traem sem misericórdia. Cerveja, cigarros, adeuses. Vamos lá.
Rodar a esmo, na invisibilidade. Banca de jornal. Ver o que não interessava, ver só para matar o tempo, muito tempo até o encontro marcado. Ouve um chamado débil (de volta à visibilidade), não se mexe. O chamado insiste, cresce, impossível ignorar. Um senhor apoiado numa bengala, trajado adequadamente para o sol, em bege e branco, um senhor de boina que diz: senhorita! És muito linda... Ela agradece, surpreendida pelo excesso de visibilidade, estaria exposta? No mesmo instante, a moça com a criança, sacolas, que bonitas as suas tatuagens. A moça tem um olho roxo, um soco, e sorri preocupada em admirar as tatuagens da outra que agradece e não entende, fica estupefata, estão todos me enxergando, será?
Quer por tudo na vida tornar-se invisível novamente, quer por tudo, não está preparada para tanto olhar assim gratuito, se olhassem apenas, mas ela está palpável, ao alcance das mãos, tão pequena ela é. Segue pela rua, não sabe para onde, segue e segue até outra banca de revistas, entra e ninguém olha. Escolhe, tira o dinheiro, o homem cobra e diz: o que está escrito aí no seu braço?, meu aparelho de tradução não encontra essa palavra... Kills. Love Kills.
É como se estivesse navegando em um barco branco no cair da tarde, um barco que singra os mares suaves e mornos, um passeio que poderia durar eternamente - eternidade, que palavra macia. Ela ainda precisa esperar pelo telefonema, um cansaço de repente, mas precisa. Vai devagar, gastando o tempo, reluta. Quantas coisas num só dia, preguiça de viver. Procurando os cantos de sombra, ela segue em direção ao local do encontro marcado. Torce para que não haja nenhum imprevisto e a pessoa aguardada possa comparecer, porque se não vier será incomodamente anticlimático, ela queria conversar com alguém que a conhecesse a fundo.
Por dentro algumas revoluções, o que dava a impressão de ter feito e vivido muito mais do que fez e viveu. Era só uma tarde, uma tarde comum, mas o sol era de solidão, daí a sensação que começava a nascer, de solidão sob o sol. Completamente só, dentro de si mesma, e por isso a condição de visibilidade ficava tão deslocada - era apenas ela, afinal, apenas ela e o interior rico e fervilhante. Sem lágrimas, sem dores fortes, só o estado crônico de estranheza e deslocamento, agora permeado pela solidão sob o sol, aquele céu, uma colcha impecável e sem rugas.
Praça, igreja. O caminhar lento do pajem medieval. Sentia-se mais alta, mais ereta, e quando isso acontecia, era fato, logo estaria também mais etérea e alheada. Cortou a praça, concentrou-se na falta de rumo, era sentar e esperar um pouco, quem sabe. Andou de um extremo a outro e de repente estacou, como se soubesse; um instante depois, o telefone tocou. Sim, sim, estou aqui. Meia hora? Certo. Sorriu; foi como se adivinhasse, aqueles pressentimentos, era razoável que tivesse tido um pressentimento naquela tarde, o sol-solitário-solitude. Mais etérea e alheada: deu-se um título, “A que estava para morrer”, pois assim parecia, assim o mundo colocara, ela não era apenas uma pecinha encaixada em algum ponto-momento da máquina do mundo? Pois então, se preciso fosse, morreria. Isto também era um pressentimento? Não deu a menor bola. Se fosse, feito estaria.
Ainda meia hora para ocupar. Sentou-se num banco, acendeu o cigarro e apanhou uma revista. Visível ou invisível? Agora não sabia, muito dentro de si e as janelinhas fechadas. Muito dentro para saber. Achou-se bem, ali sentada, à sombra da igreja e das árvores. Achou-se convicta de estar no lugar certo e na hora certa, na tarde ideal para jogos assim de visível-invisível – pois que era mesmo só um jogo de si consigo mesma. Concreto, mas sempre um jogo. Ele entenderia? Certamente, se ela soubesse explicar. Pensando melhor, não entenderia tudo, mas o cerne, o miolo da experiência e do jogo, a coisa de estar pronta para morrer no dia seguinte, isso sim seria compreensível para ele.
De súbito, entendeu. Apagava-se como uma tela de TV antiga, cuja imagem some aos poucos, com alguns espasmos, umas manchas, uns clarões repentinos. E isto, ele entenderia? Estava pronta. Ficando invisível. Levantou-se, foi espiar, já era hora. Chegaram ao mesmo tempo no ponto combinado, ele também alheado, vivia alheado. Invisível, aos olhos dela, mas estaria invisível por dentro? “Tenho tantas coisas para te contar”, e no mesmo momento percebeu que não eram assim tantas coisas; eram algumas poucas, e que brincavam de profundidade e superfície, não soube explicar para si própria se os fatos ocorridos estavam submersos ou boiando naqueles mares calmos, o barco branco. Pôs-se a falar, mas as tristezas dele fizeram tudo parecer uma grande tolice. Invisível até para ele, seria possível? Estavam então feito fantasmas, à sombra das árvores, o sol de solidão desaparecera tão depressa que ela nem mesmo notara. Um vento frio naquela praça, ela explicando, e que sorte, lembrou-se de uma boa história: se fosse pintora, estaria tudo resolvido, o que fazer com aquela tal boa história. Pintaria uma tela, ao estilo de Toulouse-Lautrec, ela esticando a perna esquerda e apontando para a prima um furo em sua meia-calça, o carro passando bem nessa hora e o motorista espiando. Na verdade, ela trocaria todo e qualquer talento para as artes plásticas pela espantosa e feliz coincidência do motorista ser também um pintor. A boa história é que o momento foi digno de ser pintado, esse era o ponto.
Ela o olhou nos olhos. Os dele estavam tão escuros, tão lupinos. Providenciou uma piada, o que sempre funciona. Vamos beber alguma coisa. Ela quis que o planeta inteiro perecesse na incapacidade de enxergá-la. Sabia que era visível para ele, afinal. Lembrava-se das palavras antigas, um cartão antigo, ela bastante visível na ocasião: Meeting you was an unthinkable, but delightful accident. Isso, sim, era importante. E se foram, disfarçados de humanidade.
[Marpessa]
Às vezes era invisível, noutras vezes visível demais. Fazia sol de solidão, aquele céu azul que era uma afronta, e tanta gente andando de cá para lá. Estava invisível, agora, definitivamente invisível. Mas isso era o agora, a praça da igreja, o caminhar lento de pajem medieval, frase do poeta Vinícius "para uma menina com uma flor”, isso era o instante presente, uma sacola pesada de livros e revistas, o local marcado para um encontro.
Antes, instantes antes, estivera visível. Indo para o centro da cidade, estivera visível o bastante para ver também, retribuir a visão do outro, daquele outro perturbador que abaixara o vidro do carro para bolinar-se olhando para ela. Um choque, o vilipêndio, o medo primitivo dos estranhos, e nem era mais criança. Só que tem umas coisas que não ficam velhas. Então, o medo, ser ofendida assim por um estranho, obrigada a ver o que não esperava. Indefesa, à mercê, tão ruim sentir-se à mercê quando não queria. Isto está errado e incomoda, chega a doer. Ficou uns bons minutos sob os efeitos nocivos daquela ancestral maneira de temer os homens. Ela se soube mais visível que as luas cheias.
Visível demais. Andou pelas ruas; foi à biblioteca, um bom refúgio se não parasse para pensar nas barrigas das bibliotecárias, porque se pensasse, que tristeza, o pensamento não seria interrompido, rebentaria em ondas indômitas de associações inúmeras, que não dão mesmo trégua a uma pobre cabecinha visível. Adoráveis volumes embaixo do braço, vamos lá.
Passou em uma loja conhecida, almoçou com um conhecido, então visível porque o conhecido a olhava e falava com ela, um calor grande, uma da tarde. Almoçando, ele; ela, uma cerveja, que coisa me aconteceu, veja só você que absurdo. Ele diz: normal, essas coisas acontecem, cada doido... Ela tentando explicar o vilipêndio, mas as palavras, como já se sabe, traem sem misericórdia. Cerveja, cigarros, adeuses. Vamos lá.
Rodar a esmo, na invisibilidade. Banca de jornal. Ver o que não interessava, ver só para matar o tempo, muito tempo até o encontro marcado. Ouve um chamado débil (de volta à visibilidade), não se mexe. O chamado insiste, cresce, impossível ignorar. Um senhor apoiado numa bengala, trajado adequadamente para o sol, em bege e branco, um senhor de boina que diz: senhorita! És muito linda... Ela agradece, surpreendida pelo excesso de visibilidade, estaria exposta? No mesmo instante, a moça com a criança, sacolas, que bonitas as suas tatuagens. A moça tem um olho roxo, um soco, e sorri preocupada em admirar as tatuagens da outra que agradece e não entende, fica estupefata, estão todos me enxergando, será?
Quer por tudo na vida tornar-se invisível novamente, quer por tudo, não está preparada para tanto olhar assim gratuito, se olhassem apenas, mas ela está palpável, ao alcance das mãos, tão pequena ela é. Segue pela rua, não sabe para onde, segue e segue até outra banca de revistas, entra e ninguém olha. Escolhe, tira o dinheiro, o homem cobra e diz: o que está escrito aí no seu braço?, meu aparelho de tradução não encontra essa palavra... Kills. Love Kills.
É como se estivesse navegando em um barco branco no cair da tarde, um barco que singra os mares suaves e mornos, um passeio que poderia durar eternamente - eternidade, que palavra macia. Ela ainda precisa esperar pelo telefonema, um cansaço de repente, mas precisa. Vai devagar, gastando o tempo, reluta. Quantas coisas num só dia, preguiça de viver. Procurando os cantos de sombra, ela segue em direção ao local do encontro marcado. Torce para que não haja nenhum imprevisto e a pessoa aguardada possa comparecer, porque se não vier será incomodamente anticlimático, ela queria conversar com alguém que a conhecesse a fundo.
Por dentro algumas revoluções, o que dava a impressão de ter feito e vivido muito mais do que fez e viveu. Era só uma tarde, uma tarde comum, mas o sol era de solidão, daí a sensação que começava a nascer, de solidão sob o sol. Completamente só, dentro de si mesma, e por isso a condição de visibilidade ficava tão deslocada - era apenas ela, afinal, apenas ela e o interior rico e fervilhante. Sem lágrimas, sem dores fortes, só o estado crônico de estranheza e deslocamento, agora permeado pela solidão sob o sol, aquele céu, uma colcha impecável e sem rugas.
Praça, igreja. O caminhar lento do pajem medieval. Sentia-se mais alta, mais ereta, e quando isso acontecia, era fato, logo estaria também mais etérea e alheada. Cortou a praça, concentrou-se na falta de rumo, era sentar e esperar um pouco, quem sabe. Andou de um extremo a outro e de repente estacou, como se soubesse; um instante depois, o telefone tocou. Sim, sim, estou aqui. Meia hora? Certo. Sorriu; foi como se adivinhasse, aqueles pressentimentos, era razoável que tivesse tido um pressentimento naquela tarde, o sol-solitário-solitude. Mais etérea e alheada: deu-se um título, “A que estava para morrer”, pois assim parecia, assim o mundo colocara, ela não era apenas uma pecinha encaixada em algum ponto-momento da máquina do mundo? Pois então, se preciso fosse, morreria. Isto também era um pressentimento? Não deu a menor bola. Se fosse, feito estaria.
Ainda meia hora para ocupar. Sentou-se num banco, acendeu o cigarro e apanhou uma revista. Visível ou invisível? Agora não sabia, muito dentro de si e as janelinhas fechadas. Muito dentro para saber. Achou-se bem, ali sentada, à sombra da igreja e das árvores. Achou-se convicta de estar no lugar certo e na hora certa, na tarde ideal para jogos assim de visível-invisível – pois que era mesmo só um jogo de si consigo mesma. Concreto, mas sempre um jogo. Ele entenderia? Certamente, se ela soubesse explicar. Pensando melhor, não entenderia tudo, mas o cerne, o miolo da experiência e do jogo, a coisa de estar pronta para morrer no dia seguinte, isso sim seria compreensível para ele.
De súbito, entendeu. Apagava-se como uma tela de TV antiga, cuja imagem some aos poucos, com alguns espasmos, umas manchas, uns clarões repentinos. E isto, ele entenderia? Estava pronta. Ficando invisível. Levantou-se, foi espiar, já era hora. Chegaram ao mesmo tempo no ponto combinado, ele também alheado, vivia alheado. Invisível, aos olhos dela, mas estaria invisível por dentro? “Tenho tantas coisas para te contar”, e no mesmo momento percebeu que não eram assim tantas coisas; eram algumas poucas, e que brincavam de profundidade e superfície, não soube explicar para si própria se os fatos ocorridos estavam submersos ou boiando naqueles mares calmos, o barco branco. Pôs-se a falar, mas as tristezas dele fizeram tudo parecer uma grande tolice. Invisível até para ele, seria possível? Estavam então feito fantasmas, à sombra das árvores, o sol de solidão desaparecera tão depressa que ela nem mesmo notara. Um vento frio naquela praça, ela explicando, e que sorte, lembrou-se de uma boa história: se fosse pintora, estaria tudo resolvido, o que fazer com aquela tal boa história. Pintaria uma tela, ao estilo de Toulouse-Lautrec, ela esticando a perna esquerda e apontando para a prima um furo em sua meia-calça, o carro passando bem nessa hora e o motorista espiando. Na verdade, ela trocaria todo e qualquer talento para as artes plásticas pela espantosa e feliz coincidência do motorista ser também um pintor. A boa história é que o momento foi digno de ser pintado, esse era o ponto.
Ela o olhou nos olhos. Os dele estavam tão escuros, tão lupinos. Providenciou uma piada, o que sempre funciona. Vamos beber alguma coisa. Ela quis que o planeta inteiro perecesse na incapacidade de enxergá-la. Sabia que era visível para ele, afinal. Lembrava-se das palavras antigas, um cartão antigo, ela bastante visível na ocasião: Meeting you was an unthinkable, but delightful accident. Isso, sim, era importante. E se foram, disfarçados de humanidade.
[Marpessa]
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