segunda-feira, novembro 08, 2004

Fábula impossível

Compenetrada, Luisa postou-se diante do espelho da penteadeira. Apanhou a boneca ruiva e começou a penteá-la devagar, tomando cuidado para não embaraçar ainda mais os cabelos de náilon. Depois Luisa apanhou um vidro de perfume, abriu-o e delicadamente molhou a ponta dos dedos, esfregando-o no pescoço da boneca. Então sorriu. Estava ficando bom.

Depois Luisa levantou-se e abriu a porta do guarda-roupa. Tirou de dentro uma roupinha e com ela vestiu a boneca ruiva, penteada e perfumada. Apanhou um batom e com muito cuidado traçou nos lábios da boneca uma linha fina e rosada, evitando borrar. Sob os olhos da boneca, Luisa aplicou um pouco de sombra preta, criando desta forma um par de olheiras. Com um lápis, Luisa delineou o contorno dos olhos. E os olhos da boneca eram verdes como os dela.

Olhando-se no espelho Luisa olhava também o que havia atrás dela. Uma série de coisas enfileiradas, acasos e fatos atirados à realidade como em um sonho de significado obscuro. No espelho Luisa era Luisa e mais alguma outra pessoa que não Luisa, uma pessoa escondida sob camadas impiedosas de tempo. E quanto mais o tempo passava, mais Luisa sentia um sabor especialmente amargo na boca.

Luisa levantou-se e fechou a janela. As dobradiças rangeram, porque Luisa as fechou devagar, deixando do lado de fora o que se costuma chamar de sol. Era tarde, quatro horas e janeiro de novo. Mais uma vez, sol e janeiro e quatro horas. O relógio tiquetaqueava, incansável. Um filete de suor escorreu pelo pescoço de Luisa, indo morrer a meio caminho entre o pescoço e o colo. Um calor viscoso e amplo o bastante para abarcar Luisa, espelho e quatro horas mais dois minutos.

Sentou-se novamente e apanhou a boneca. Tinha ficado bonita mas um pouco adulta demais. Luisa pensou se a boneca não era uma prostituta disfarçada, e se as prostitutas eram mais felizes quando se travestiam de bonecas, porque decerto faziam isso às vezes para espantar o medo, arremedando aquilo que viam atrás das costas quando postavam-se diante de espelhos largos de penteadeira.

Os olhos de Luisa, tão verdes e bonitos. Tão característicos dos felinos. Quando criança Luisa tivera gatos de todos os tipos e cores. Isso ia longe, lá atrás, uma lembrança que morava junto com outras tão antigas quanto. Os olhos de Luisa estavam embaçados.

Um copo quebrou-se. Luisa teve um sobressalto e lembrou-se, então, de que não estava sozinha. Correu até a cozinha e viu Marcela, as mãozinhas ensangüentadas, miando um lamento agudo pela dor e pelo susto que levara. Luisa acudiu a filha, lavou-lhe as mãos, acalmou-a. Notou um corte profundo entre os dedos da mão esquerda de Marcela que miava “mamãe, tá doendo”.

O coração de Luisa disparou e o ar começou a faltar. Cada vez mais longe, a reclamação da menina e a visão das gotas de sangue no chão. Luisa segurava flacidamente a mão boa da filha e a puxava para si, apertando contra o peito aqueles dedinhos perfeitos e pequenos. Ajoelhou-se diante de Marcela, beijou-lhe o rosto e pegou-a no colo com grande esforço. Levou a menina até o quarto, colocando-a sentada na banqueta da penteadeira.

Marcela viu a boneca. Luisa sentou-se no chão, abriu a gaveta, apanhou gaze e esparadrapo. Com a mão boa, Marcela pegou a boneca e distraiu-se imediatamente, deixando para Luisa a tarefa materna de se preocupar com o ferimento e a tira de esparadrapo dificílima de cortar. Com a respiração sufocada, Luisa fez um curativo na mão da filha. Marcela interrompera os choramingos e conversava, naquela linguagem mágica das crianças, com a boneca ruiva. Não doía mais.

Vencendo furiosamente o suor e a ausência de ar, Luisa beijou Marcela e pegou de sua mão a boneca. Abriu o forro e de dentro retirou um pedaço de papel. Devolveu-a à filha. Arrastou-se até o banheiro e fez todos os esforços possíveis para vomitar. O pedaço de papel amarfanhado, letras borradas, mas ainda legível.

Não havia como ter para si a boneca. Marcela a tomara. E crianças são crianças. Os minutos escorriam do relógio e a boca de Luisa cada vez mais amarga. A boneca rasgada, o banheiro frio de azulejos brancos e o telefone tocando na sala... Marcela não alcançava o telefone, gritava do quarto “mamãe, telefone!”.

Não vomitou. Uma ardência seca e rascante subiu do esôfago, queimando dolorosamente a garganta. Luisa não pôde chorar. O telefone furioso e Marcela batendo na porta do banheiro, chamando, ficando enfim assustada de verdade porque a mãe não lhe respondia.

Marcela e o telefone longe. Luisa abriu a porta, não sem antes passar os olhos pelo espelho e enxergar um rosto pálido e crispado de dor. Destrancou a porta e Marcela ali, diante dela, o telefone. Arrastou-se até a sala e apanhou o telefone. Porém não disse nada, e a pessoa do outro lado também não disse nada e assim o mundo calou-se a não ser por Marcela que, desatenta a tudo, voltava a brincar com a boneca ruiva.

Não era possível que demorasse tanto, mas ao mesmo tempo era um alívio que fosse assim porque Marcela. Luisa, esforçando-se, apanhou novamente o telefone e discou um número. O homem atende, voz distante, tudo distante e escapando dos limites da realidade.

- Alô?
- Venha para casa. Agora. – A voz desmaiada de Luisa.
- O que há? – o homem quis saber.
- Venha.

Luisa desligou. Além do suor cada vez mais abundante que empapava suas roupas e do amargo insuportável na garganta, Luisa agora sentia uma espécie de alívio. Agachou-se ao lado de Marcela e a beijou carinhosamente. Teve a sensação de que não conseguiria de levantar, mas era preciso, Marcela, a boneca pintada que agora estava manchada das mãozinhas de Marcela que a apertara e esfregara. A boneca sem serventia, mas Marcela tinha com quem conversar e o bilhete amassado nas mãos de Luisa, uma cama, era preciso uma cama imediatamente.

Ao atirar-se no colchão, Luisa sentiu algo tão bom que parecia mentira. Uma delícia de cama, fresca, limpa, o teto girando e o suor frio que não parava de escorrer e ia molhando os lençóis brancos, ele viria salvar Marcela e afastar os vizinhos, leria o bilhete posto sobre a cômoda ao lado do abajur e então saberia, que delícia não precisar explicar, porque explicações são tremendamente cansativas. Mas Luisa pensou: a boneca. Ele não entenderia a boneca porque jamais entendera a boneca e não seria agora, a seqüência dos fatos se alterara inevitavelmente com o esquecimento da presença de Marcela, só podia mesmo estar louca porque Marcela, como esquecer Marcela tão linda e meiga, tão maravilhosa e pequena, quase um bebê a requerer cuidados mil. A boneca estava nas mãos erradas, não Marcela e sim ele a apertar a boneca contra o peito na angústia surda cheia de culpa, os soluços que só os homens conseguem dar em momentos assim, de angústia surda.

Luisa reúne forças e grita. Marcela entra no quarto. Luisa pede a boneca “deixa ver, filha”, com um fiapo de voz e Marcela diz “mamãe está gripada”, virando-lhe as costas e indo à cata de outra distração porque a boneca não era mais novidade, meia hora depois. Com a boneca nas mãos, Luisa abre as pernas e os braços, numa posição bastante confortável. Sorri, e agora apenas espera que o veneno cumpra seu papel.

[Marpessa]

4 comentários:

Anônimo disse...

Apenas uma gota miúda para desturir uma vida inteira.

Anônimo disse...

Olá, tudo bom?
Aqui é o Teddy, do paocomfarofa.blog.uol.com.br. Lembra? :)
Gostei bastante...tô até meio bobo...
Que ambiente! Que angústia! E o detalhe da boneca? E os motivos implícitos de uma vida que ninguém entendeu para a decisão do veneno?
Tá tudo muito bom. Vou começar a ler todos os outros.
Abraço.

Márcia Maia disse...

Ainda atônita, aqui. Perfeito. E no meio da perfeição, uma pérola se esconde, meio à tensão da personagem: "deixando do lado de fora o que se costuma chamar de sol."
Bravo, Marpessa. Bravo.
Um beijo.

Anônimo disse...

O tema é sinistro, mas que texto bem construído! Muito bem, Marpessa.