quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Antecâmara
(texto que é parte do meio de algo que ainda não tem começo nem fim)

E se aquela noite fosse claramente uma espécie de coágulo, um vórtex vermelho que sugasse tudo ao seu redor, inclusive o tempo e o espaço? Não haveria como saber enquanto permanecesse fora, a uma distância segura dos fatos. Ao mesmo tempo precisava provar que o coágulo existia e que era também de sua responsabilidade. Havia sua própria força em jogo, além daquelas outras, além da espantosa casualidade.

Seria, então, a sua noite do subliminar, a noite em que se afogaria sem temer a intensidade, mantendo firme a disposição racional de analisar tudo sob um ponto de vista não-emocional, posto que o emocional turva a visão do cientista, ainda que o que esteja sendo analisado seja o coágulo ou a consciência trêmula do inefável.

[Marpessa]

6 comentários:

Márcia Maia disse...

Tem sua marca registrada, o texto, Marpessa. E este último parágrafo é perfeito.
Um beijo.

D. disse...

A fratura do dia exposta como coágulo, nesta minha noite. [Entrei aqui e não só li o escrito sendo um recado, como dele me apropriei como se fosse o meu caso]. Estou como se estivesse naquela fissura da realidade em que mal estamos – exato instante no qual, ainda relutante mas já entregue, me tenho preso agora, ainda que não esteja, de fato, no lugar ao qual ele me joga. Lugar que de mim foge talvez por ser sugado pelo tal vórtex vermelho ao qual você alude, confundindo a nitidez das minhas imagens sem cor, agora rubras pela tinta das tuas palavras. Talvez aconteça, ao eu amanhã despertar deste claro-escuro irracional que agora me cerca, desta consciência que trago comigo tremular por instantes opaca, antes de ser descoberta inefável. Mas, fracassando agora esta evidência que só é futura, permaneço aqui encerrando-me em tentativas que procuram à vista a figura que as dê forma. Costumo dizer que o dia não clareia, ele esclarece, e talvez seja por isso que eu deteste tanto a luz dele. Percebe que, dizendo isso último, acabo de provar minha insistência em permanecer preso no lugar em que estou e do qual luto para sair? Que coisa, acabo de me esclarecer sem querer. Hum! A tendência seria agora eu reler o que escrevi e apagar, mas como achei, desde o começo, que escrevia para alguém, vou deixar aqui escrito para você. [Ah!, quando falo da consciência tremulando opaca, antes de inefável, é porque ainda não descobri se estou dormindo ou se estou sonhando, estou sempre neste limiar que talvez não seja fronteira, mas prisão mesmo. Se bem que agora, depois disto que escrevi, desconfio muito de mim mesmo].

Lamento, eu entro aqui e digo assim – palavras mancas que passeiam por uma calçada irregular –, sem tentar insistir no racional que às vezes – sim, às vezes acontece sim – minha mente se dedica. Mas, nestas horas, nem cientista nem filósofo nem artista, apenas esta insônia reveladora, que insistentemente aos poucos me consome – tenho sofrido assédios dela quase que constantemente, nos últimos dias. Mas deixa estar, pois logo logo ela dorme e escaparei das garras destas cadelas negras que, embaixo das folhas nas quais escrevo, as pontas de meus dedos mordem [“Deve dizer-se em baixo ou debaixo? Mordem de qualquer modo”].

Bom, só passei pra te deixar um recado, ainda que eu sinta que escrevi mais para mim mesmo. Achei mais convidativo este espaço que aquele outro no qual você me encontrou. Gostei daqui. Até, e é fácil de se notar, já fui contaminado [tudo facilmente aliado à minha pré-disposição para estes casos; é a tal casualidade vestindo-se de causa]. Visitarei este espaço muito mais vezes, até logo. Seu... paredro?

Marpessa disse...

então, D., esclareça-me: onde foi que te encontrei antes?, e por favor não me diga que nos encontramos anteriormente na Cidade de calçadas altas, de trincheiras e de elevadores horizontais...porque meu paredro seria o primeiro a censurar-nos e a nos chamar de loucos...

D. disse...

Bom, a essa altura já nos sabemos, então pulo uma ou duas frases deste parágrafo do diálogo e transcrevo um trecho [do 62, claro!] que talvez te ajude com os coágulos, ou também não importa, desde que seja lido:

"Sim, mas também era preciso pensá-lo porque no fim das contas ele era aquilo e seu pensamento, não podia ficar no suspiro, numa contração do plexo, no vago temor do entrevisto. Pensar era inútil, como desesperar-se por lembrar um sonho de que só se alcançam ao abrir os olhos os últimos fiapos; pensar talvez fosse destruir o pano ainda suspenso em algo como o reverso da sensação, seu latejar por ventura repetível. Fechar os olhos, abandonar-se, flutuar numa disponibilidade total, numa espera propícia. Inútil, sempre tinha sido inútil; daquelas regiões tenebrosas tornava-se mais pobre, mais distante de si mesmo. Mas pensar caçadoramente valia ao menos como reingresso neste lado..." {Logo no começo, 11}

Marpessa disse...

é. estou assim. sempre vivi assim. uma perfeita bolha de sabão.
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"Por que diabos esperava um milagre, se nem sabia que tipo de milagre desejava? Angústia de sonhar com o milagre, de imaginar um leque tolo de milagres, qual deles queria, e por que o queria, se jamais viriam? Sempre o mesmo: não há milagres possíveis quando se espera por eles. Tomou mais um gole de chopp, os espelhos, Deus do céu, morava em um espelho postado diante de outro e ambos se refletem, ela mesma centenas infinitas de vezes, bonecas russas enfiadas umas nas outras até o indivisível do ser."

Anônimo disse...

a menina Grega sempre me espanta..como pode ser tão boa nisso q faz?...q vergonha de achar q escrevo tb...beijos dona moça
Beanes