segunda-feira, setembro 05, 2005

Letra calada

“Coisas que a gente se esquece de dizer
Frases que o vento vem às vezes me lembrar
Coisas que ficaram muito tempo por dizer
Na canção do vento não se cansam de voar”
Lô Borges, O Trem Azul


E porque era dia, era sol e céu claro, e porque havia a quietude das tardes primaveris, e porque o vento trazia lembranças; por tudo isso é que comecei a pensar no acaso e nas forças que me moveram até que eu chegasse onde cheguei, até que tudo acontecesse da forma como aconteceu – sem prévio aviso. Não foi fácil relembrar e tentar descobrir o que ficara faltando na ocasião, quando muita coisa parecia ter ficado faltando, mesmo antes já estava sendo incompleto, e eu que não podia acreditar em coisas que parecessem incompletas depois de tanto tempo caçando gatos pretos em quartos escuros.

Eu, e ele. Tão banal, tão comum. E tão provável que nos encontrássemos no metrô, tão provável que trocássemos impressões bobas, frases vazias enquanto esperávamos, um cadarço desamarrado e então puxa, você gosta de ler e sim, eu gosto muito e nossa, meu autor predileto, estou falando sério e um sorriso bonito, um primeiro olhar mais demorado, tão fácil e escorregadio, um deslizar para dentro daquilo que já nos dominava e nos sugava, nós nos deixando ir sem medos, naquele instante de olhos e secreta atração, em que a consciência era um inseto voando ao redor de uma lâmpada bem longe de qualquer lugar.

É certo que nunca houve muito o que dizer, mas também é certo, eu sempre soube, desde o começo, é certo que algumas lacunas precisariam ser preenchidas e por causa disso estabelecer comunicação verbal e dizer coisas, dar forma ao que sentia, derramar letras e histórias de nossas vidas, contar um para o outro o que tinha sido existir até então e quantos percalços e eu, de minha parte, criando um personagem vivo que ao mesmo tempo em que era formado também me formava, dava-me adjetivos, adivinhava minha sintaxe, apreciava a sonoridade do meu nome e o repetia baixinho, ao que eu interrompia porque não me agrada muito ouvir meu próprio nome, não estou acostumada, essa é a verdade. Mas ele, mesmo assim, dizia, e eu o interrompia com um beijo no canto dos lábios.

(Momento de silêncio: corpo e espírito integrados, unidos na mesma tarefa do prazer. Hora em que só sentir, sentir, sentir, toques suaves, movimentos bruscos, sentir, sentir, sentir, sorrir e morrer depois. Momento de silêncio.)

Passou um ano inteiro e ao término desse período vi-me novamente só. Escapamos um do outro – fugimos? – quase sem notar, e nos guardamos na gaveta. Foi só então que pude perceber quanto, quanto havia debaixo do tapete, ao mesmo tempo em que recordava, reverenciando cruelmente a dor da perda. Quanto havia, quanto ficara faltando, as lacunas frias, quietas, demasiado quietas. Todos os metrôs que peguei, jogando comigo mesma, achando que o veria, que de súbito, mas ele parece ter mudado os horários, a rotina, porque nunca mais, e a cada dia eu juntava uma nova palavra na boca, deixando frases e frases prontas para ele, que nunca mais vi.

Até que, meses mais tarde, adivinhei o que ficara faltando. Assim, repentinamente, descobri, e era um dia de sol e céu claro, primavera e ventos brandos, e esse dia era ontem, e então pensei naquilo que nunca nos dissemos mas que deveria ter sido dito, porque houve um momento em que era necessário dar forma ao que se sentia, porque somos animais racionais e dominamos o verbo, porque dizer significaria fixar o instante nas curvas do tempo, gravá-lo, torná-lo eterno, por fim. Mas, hoje pela manhã, não sei como e prefiro continuar sem saber, aconteceu de ele estar lá, na estação do metrô. Seu cadarço estava desamarrado. Ele me olhou, sorrindo. Quando me aproximei, dissemos, quase ao mesmo tempo:

- Ontem ventou tanto. Você ouviu também?

[Marpessa - texto do Aquele #6]

12 comentários:

Giovana Machado disse...

Nossa... que bonito, mapi... deu até friozinho no coração ;)

Anônimo disse...

Marpessa, minha cara. Não é hora de emprestar seu talento à uma grande história e transformá-lo em um romance?
Queria te ver publicada. Teus textos merecem.
:)
Teddy.

bel_Guerra disse...

sim sim até senti o barulhinho que faz o trilho antes do metrô chegar, é tão bom. e gosto tanto de estar no metrô que acontecem tantas coisas da vida, sabe vi tudo e se fez perceber tanta coisa em poucas ações e palavras e tantos espaços.

Anônimo disse...

A quase um ano leio teus textos discretamente sem nunca ousar qualquer tipo de manifestação. Já compartilhei de divessas emoções através deles, mas dessa vez não me contive:
Parabéns!
Desejo-lhe toda a sorte que é própria aos deuses!
De uma antiga admiradora não lésbica.

Gisele Amaral disse...

Fantástico. Surpreendente. Maravilhoso. Parabéns.

yara disse...

friozinho no meu coração também... lindo...

teddy disse...

Está devidamente homenageada lá no meu bloguinho. Que maravilha!

paocomfarofa.blog.uol.com.br - Teddy

Hermann disse...

Gostei! Gostei muito! Não sei nem mais o que dizer além de elogios que todo mundo conhece!

Atualize seu blog, é o que tenho a dizer! Deu vontade ler mais coisas suas!

Júlio disse...

putz!

Michel disse...

Caramba. Isto é muito bom de ler.

Hermann disse...

Não é querendo forçar.....
.
.
.
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mas o próximo post está próximo?

hehehehe

Beijos!

pensadorcabreu@hotmail.co.uk disse...

Impossível, ouvir, como um sussuro em meu ouvido e ficar calado. Até mudo eu tenho que expressar, a sensação que recebi, o orgulho de poder ler, degustar e apreciar o paladar deste texto. Parabéns, você merece! Quero mais. Muito mais!