sábado, dezembro 03, 2005

Drama

- Que bom que você voltou.

Ela estendeu a mão fria. Ele tocou de leve aqueles dedos; resultou em uma pressão frágil, fugitiva. Tanto tempo, e a dor que voltava, envelhecida. Ele não sabia porque voltara, agora que olhava para ela nos olhos e sentia o próprio rosto esquentar. Vergonha, como se ainda fosse antes (quando fugira, quando a deixara, quando a magoara muito e tão profundamente) mas antes não sentira vergonha de nada, perdendo, desse modo, a excelente chance de. E ali diante dela sete anos depois era o constrangimento poderoso a paralisar ações, a torná-los ridículos bonecos de cera, de pé um diante do outro no meio de uma sala aconchegante de um belo apartamento em uma bela cidade. O gelo e o silêncio em que se armava uma história em tijolinhos, há muito perdida, liquidada. Sete anos depois era o olhar parado, a poeira das coisas.


Em vão ela buscava razões para o silêncio. Não havia. Talvez fosse melhor – pensou, - talvez qualquer coisa fosse melhor, talvez a única coisa importante fosse o que agora era impossível, não abrir a porta ao passado, evitar a vertigem e os tijolinhos; dar um tiro na cara dele, cuspir o veneno em palavras, afinal, o que esperava? Não queria admitir que esperava ou mesmo que havia algo a esperar-esperar, esse verbo inútil, morto ao nascer.


Tanto perderam, ambos. O que restou era difícil explicar, uma asa trêmula separada do corpo agonizante, a avenida, carros, sorvetes e dias azuis, lembranças, janelas, a fuga na ausência, sons sem eco, a feiúra do rosto quando a máscara finalmente caiu, tão boba, sentindo-se burra, coisas assim tão comuns que acontecem a todo momento por aí, e nem mesmo sabia porque raios havia dito que achava bom que ele tivesse voltado, estupidez, frase murcha e flácida, aperto de mão vacilante, odiou-o por isso, teve nojo, odiou-se também, dar um tiro no meio daquela cara, tiro no espelho, odiando e odiando e odiando pensar, odiando não ter conseguir chorar quando era preciso, nunca – percebeu de repente -, nunca tinha sido tão necessário chorar como ali-agora, ou quem sabe? Morrer, esquecer. Esperar. O verbo terrível, inútil.


- Que bom que você voltou – repetiu.


Estreitou-o num abraço úmido e acolhedor.

[Marpessa, edição 10 do Aquele]

3 comentários:

Julia Medrado disse...

Gosto de história assim...

Michel disse...

Como sempre eu paro de ouvir música pra entrar nas suas palavras.
Demais.

abração

quina vida disse...

saio com a impressão que tudo isso não passou de míseros segundos nas cabeças dos moços.

até. valeu pelo post.