domingo, dezembro 19, 2004

...

O jogo da amarelinha joga-se com uma pequena pedra que é preciso empurrar com a ponta do sapato. Ingredientes: uma calçada, uma pedrinha, um sapato e um belo desenho feito com giz, preferivelmente colorido. No alto, fica o Céu, embaixo a Terra, é muito difícil chegar com a pedrinha ao Céu, quase sempre se calcula mal e a pedra sai do desenho. Pouco a pouco, porém, vai-se adquirindo a habilidade necessária para salvar as diferentes casinhas (caracol, retângulo, fantasia, esta pouco usada) e um dia se aprende a sair da Terra e levar a pedrinha até o Céu, até entrar no Céu (...); o pior é que, justamente nesse momento, quando ainda quase ninguém aprendeu a levar a pedra até o Céu, a infância acaba de repente e se chega nos romances, na angústia do divino foguete, na especulação de outro Céu ao qual também é necessário aprender a chegar. E, por se ter saído da infância (...), esquece-se que, para alcançar o Céu, é preciso ter, como ingredientes, uma pedrinha e a ponta de um sapato.

[Julio Cortázar, capítulo 36 de Rayuela]

3 comentários:

Júlio disse...

Cortázar chega com o lúdico onde a profundeza não permite qualquer um alcançar.

Márcia Maia disse...

adoro esse livro.
beijo daqui.

Andréa Muroni disse...

Ai, como Cortazar é bonitinho com seus diminutivos...