domingo, julho 31, 2005

Do nascimento dos cronópios

Gestação
Redonda e doce como uma maçã do amor, a mãe cronópia. Ela, quando fica bem quieta (seja num ponto de ônibus, no metrô ou no banho), consegue ouvir seu bebê dançando catala. Nessas horas de dança intra-uterina, a mãe cronópia fica um pouco assustada porque não pode entender como um ser tão pequeno pode dançar tão bem – um verdadeiro fenômeno que a mãe cronópia tenta esconder nos lugares públicos (sabemos que a catala é barulhenta). Quando ela está no banho e o pequenino começa a dançar, ela não se assusta tanto e dança também, com grande cautela para não escorregar e cair.

Repleta de prodígios é a gestação dos cronópios. Além de dançarem catala no calor e maciez do útero materno, os cronópios assobiam, denotando um gosto musical pré-natal apurado. A mãe normalmente fica surpresa quando ouve o assobio fraquinho, distante, pela primeira vez, mas se acostuma e assobia junto com o filho, porque é triste demais ouvir uma barriga assobiar sozinha.

Um último prodígio, que merece ser contado: as bolhas de sabão. É notório que cronópios de todas as idades adoram fabricar bolhas, e isso se revela desde a gestação. É nesse período cheio de maravilhas que a personalidade singular de um cronópio começa a se construir, e por isso as bolhas de sabão aparecem, a mãe cronópia soluçando e no meio de um chá, de uma festa ou em um ônibus surge aquela imensa bola transparente colorida, caprichosamente criada pelo bebê-cronópio apenas para fazer graça e a mãe, em vez de ficar constrangida, aprecia com delícia os olhares longos que perseguem a bolha até que esta se estoure contra uma janela, um cigarro ou uma cabeça.

As mães cronópias, redondas e doces como só elas podem ser, não vêem a hora de botar as mãos nos seus bebezinhos que já nascem sabendo tanta coisa.

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Parto
Os cronópios costumam se recusar a nascer. Às vésperas do nascimento bate-lhes uma angústia pré-existencial tão grande e tão forte que eles meditam muito profundamente sobre se vale mesmo a pena, afinal tanta dor e um cansaço... De qualquer forma, não têm como escapar: todos ao redor os incitando a vir, a dar as caras, que se há de fazer. Eles nascem, mas com uma relutância que francamente. A mãe chora, esparrama-se, implora, tão doce e redonda. Bolhas de sabão saem às dúzias, catalas e assobios e uma confusão incrível que nem parece verdade, tudo na hora em que os cronópios estão nascendo.

Quando finalmente deixam o corpo da mãe para cair na vida, dão um tremendo trabalho ao doutor porque vêm envoltos em uma gosma tão úmida que eventualmente são confundidos com axolotes. Mas claro, uma mãe cronópia não pode dar à luz um axolote; no entanto, ninguém fica sossegado enquanto o pequeno não é limpo de acordo com as regras. Daí se vê sua umidade natural, verdinha, e todos têm a certeza de estarem vendo um cronópio e não um axolote. Cobrem-no de carícias, às quais ele nem sempre corresponde porque ainda tão exausto e um tanto quanto chateado. Não está completamente convencido de que foi um bom negócio, especialmente se abre os olhos e vê o pai e os tios dançando uma catala, no mínimo, constrangedora.
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[Marpessa]

2 comentários:

Thiago Quintella disse...

DAncemos catala!!! tenho que verificar se sou um cronópio!!
beijos Marpessa!

Lília disse...

Deu curiosidade depois do texto e dos posts na Cronópios do Orkut... enfim, vejo a (con)sequencia do parto! Redrobo os elogios, um belo trabalho de parto e gestação! bejim