domingo, agosto 14, 2005

Sumidouro

Um homem e uma mulher caminhavam de mãos dadas pelo parque. Subitamente, nuvens encobriram o sol. Logo, encobriram também a luz. No escuro, homem e mulher abraçaram-se, temendo o pior.

Enquanto discutiam nervosamente sobre o que fazer e que direção seguir, ambos sentiram que havia alguém muito próximo, observando-os de certa altura e rindo-se deles. A mulher tremeu de pavor e o homem, corajoso, ergueu os olhos.

Espanto. Risos mais altos. Um par de olhos. Uma chama imensa surgiu, como um sol alaranjado incandescente do qual se desprendia uma fumaça branca. Não entenderam. Sentiram frio. E perceberam que algo mais acontecia ali.

Era como se a luz estivesse voltando. A escuridão começou a dissipar-se em um horizonte branco, infinito. Homem e mulher permaneceram imóveis; o parque estava sendo tragado pela luz branca. Logo eles também seriam. Os olhos agora estavam bem abertos, e o sol alaranjado ia aos poucos se desfazendo em fumaça.

Quando a luz branca os alcançou, o casal soube que jamais voltaria a caminhar de mãos dadas pelo parque. Não havia mais um parque, não havia mais homem e mulher e logo a consciência de homem e mulher também desapareceria.

Bastou um instante e um grito: homem e mulher nunca existiram, de fato.

[Marpessa]

2 comentários:

Michel disse...

Puxa. Nunca existiram. Transcedental.

Thiago disse...

a relação escuro e claro foi demais, ainda mais com o desfecho.. fiquei na ilusão!